[Atenção: este texto tem spoilers sobre a série Magnum, ou Wonder Man no original]
Apesar de estarmos pouco mais de dois meses em 2026, é possível dizer que já temos uma das grandes surpresas deste ano: Magnum. A série do Disney+ não fez muito barulho no sentido de marketing, mas é ensurdecedora no único sentido que deveria importar para os “cabeças” da Marvel hoje: o boca a boca.
Este é o primeiro conteúdo do MCU em anos que está sendo bem recebido tanto pela crítica quanto pelo público. E ele faz isso de uma forma então então que não vimos a Marvel tentando: colocando de lado o uso de superpoderes e o combate contra ameaças apocalípticas para apenas contar uma boa história envolvendo dois personagens interessantes.
Na superfície, Magnum é um exemplo real e detalhado daquilo que há anos os críticos e fãs pedem no MCU e os chefões da Marvel apenas fingem que entregam: um clássico estudo de personagem. O que diferencia Simon Williams (interpretado por Yahia Abdul-Mateen II) dos outros heróis que vemos nas séries para a Disney+ é justamente o fato de que ele não quer ser um herói – ou mesmo um anti-herói. Ele quer ser um ator e, neste sentido, os poderes que ele tem são mais uma dificuldade para realizar esse sonho do que algo que vai fazer ele se destacar das outras pessoas “normais”.

Yahya Abdul-Mateen II é Simon Williams, um ator em busca de uma oportunidade para alcançar o sucesso e que precisa aprender a lidar com o fato de ter super-poderes (Imagem: divulgação/Disney+)
Ainda que no fim a história de Williams seja uma história de heroísmo, ela acontece por um contexto diferente. Enquanto essas “histórias de origem” normalmente nos mostra nosso herói (ou anti-herói) aprendendo a usar seus poderes (Cavaleiro da Lua, Gavião Arqueiro), descobrindo seu papel no mundo (Falcão e o Soldado Invernal) ou fazendo uma jornada pessoal onde traumas são resolvidos com batalhas entre seres de poderes semelhantes e um raio de energia que atravessa os céus (Wandavision, Agatha Desde Sempre), Magnum caminha por outra direção. Aqui, os poderes não são algo que definem o personagem, mas algo que ele tenta compulsoriamente ignorar que possui.
E essa “superação” dos poderes – que vem não no sentido de aprender a controlá-los e “usá-los para o bem”, mas em aprender a se controlar e impedir que eles se manifestem de uma forma que possam atrapalhar suas ambições – é conseguido com a ajuda de Trevor Sllatery (Ben Kingsley). O personagem que até aqui era uma das piores piadas da Marvel – o vilão Mandarim que não é o Mandarim de verdade, mas um ator contratado para fingir que era um terrorista – se torna um dos mais interessantes do MCU no fim de Magnum.
O relacionamento entre ambos é fácil a melhor coisa de uma série com diversos pontos positivos, e deixa claro que às vezes tudo o que você precisa para deixar o público entretido é de dois bons atores sendo bons atores em tela. Abdul-Mateen II e Kingsley conseguem fazer com que uma cena onde ambos ficam quase cinco minutos conversando apenas por citações de Shakespeare seja o ponto mais interessante de um episódio. E se dois atores conversando entre si com citações de Shakespeare conseguem entregar uma cena que passa uma sensação de entendimento e aceitação ao invés de soar pedante, é porque há muita habilidade envolvida ali.
No fim, a jornada de ambos chega em um final que não apenas faz sentido retórico, mas sentido emocional. É apenas com um “sacrifício” feito por Sllatery – que finalmente aceita que precisa se responsabilizar pela consequência de seus atos – que Williams consegue alcançar suas ambições como ator e finalmente conseguir um espaço em Hollywood. E é pela força dessa amizade que ele finalmente se transforma no herói que seus poderes sempre o empurravam para ser. E é uma transformação baseada no conceito de que nem sempre “ser justo” é igual a “obedecer a lei” – principalmente quando essas leis são criadas por pessoas mais interessadas em achar corpos para encher as celas de uma prisão e não sofrer cortes no orçamento do que em fazer justiça.

Ben Kingsley retorna como Trevor Slattery, o ator que ficou famoso por fingir ser o terrorista Mandarim (Imagem: divulgação/Disney+)
Magnum como ponto de entrada para os X-Men no MCU
Apesar de Magnum ser uma série bem centrada em si mesma e não terminar com uma “promessa” de que o personagem irá retornar em outro filme ou série, ela pode se tornar o projeto mais importante para o futuro do MCU como um todo. Isto porque, de forma meio subliminar, ela desenvolveu toda a base para a entrada dos X-Men no MCU.
Um dos grandes dilemas da Marvel desde que a Disney adquiriu a Fox em 2017 é “quando e como os X-Men serão inseridos no MCU”. Já se passaram quase dez anos dessa aquisição e, com a exceção de algumas pistas (como a confirmação de que Kamala Khan é uma mutante em Ms. Marvel) e o filme Deadpool & Wolverine que se passa numa realidade diferente, ainda não tivemos nenhuma intenção real de apresentar o que seria os X-Men neste universo.
Um das dificuldades para isso seria explicar como introduzir tantas pessoas com superpoderes. Até agora, o MCU tem tratado os superpoderes como algo extremamente raro e que, na maioria das vezes, depende de fatores externos (como acidentes envolvendo radiação, consumo de plantas raras ou experimentos governamentais). E ainda que as estimativas mais altas dos quadrinhos indiquem que cerca de 0,4% da população mundial possui o gene mutante, isso significaria que cerca existem cerca de 32 milhões de pessoas no mundo com super poderes. E ainda que seja um número baixo para a população mundial, é bem maior do que os cerca de 100 personagens superpoderosos conhecidos no MCU. Como explicar que a população tenha se espantado tanto com um cara bombado que usa um escudo – ou um bilionário que construiu uma armadura que voa e solta raios – quando elas podem conviver diariamente com alguém que consegue congelar qualquer coisa apenas com o toque?
A resposta a essa pergunta é algo que é explicado por Magnum. Assim como Simon Williams, é altamente possível que essas pessoas sempre conviveram na sociedade, mas escondem seus poderes por considerar eles uma aberração que os impedem de viver vidas normais. E este tipo de explicação não apenas faz sentido para explicar que os mutantes sempre existiram no MCU, como também é algo que faz total sentido com os X-Men dos quadrinhos. Afinal, o que não falta são arcos narrativos de personagens que enxergam seus poderes como uma maldição (oi Vampira!). E, se quiser, ainda é possível usar aquele velho humor “marvelesco” para explicar coisas mais “inexplicáveis”. Por exemplo, quem garante que aquilo que as pessoas acreditam ser o Pé Grande não é apenas um mutante tipo o Fera, que vive escondido na floresta porque sabe que nunca será aceito na sociedade?
Outra coisa que Magnum introduz e que pode ser beneficial para os X-Men no MCU é mostrar como contar histórias que não são centradas em ser um super-herói usando super poderes é algo que a audiência está pronta para receber. Apesar de no senso geral os X-Men serem lembrados por suas batalhas e seus super poderes, esta costuma ser a menor parte das histórias desses personagens. A maior parte das páginas dos quadrinhos são preenchidas por narrativas assim como a de Magnum – ou seja, mais centrada nos relacionamentos entre os diversos personagens e com os poderes relegados a segundo plano, muitas vezes também vistos como obstáculos para que essas pessoas consigam alcançar sua ambições (que normalmente consiste em viver uma vida normal e ter relacionamentos tóxicos normais, do tipo ficar se perguntando “será que ele vai me ligar amanhã cedo?” e não “será que ele vai perder o controle e me pulverizar quando gozar?”).
Essas coisas vão realmente acontecer? Eu não sei, e é capaz que a essa altura do campeonato nem o Kevin Feige saiba ainda (porque se soubesse ele não esperaria uma década pra usar a galinha dos ovos de ouro que são os X-Men), mas uma coisa é certa: as bases foram definidas e o público mostrou que aceita – e até anseia – por histórias focadas no desenvolvimento emocional de um personagem ao não em “Soc! Pow! Tum! Blizt! Fwoosh!”.
*Todos os episódios de Magnum já estão disponíveis no catálogo da Disney+.
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

