O Agente Secreto é sobre contar a história da ditadura pelo policial e pelo guardinha. Por Pedro Zambarda - Drops de Jogos

O Agente Secreto é sobre contar a história da ditadura pelo policial e pelo guardinha. Por Pedro Zambarda

Indo na onda de Ainda Estou Aqui

Agente Secreto, com Wagner Moura - Divulgação/Vitrine Filmes

Agente Secreto, com Wagner Moura - Divulgação/Vitrine Filmes

Por Pedro Zambarda, editor-chefe. CONTÉM SPOILERS.

Ainda Estou Aqui, em 2025, conquistou o primeiro Oscar do Brasil contando uma grande história sobre a ditadura militar em torno da família de Rubens e Eunice Paiva, uma típica história de Rio de Janeiro e São Paulo. Ambientado em Recife, e esbanjando o nordeste que viveu o mesmo período, O Agente Secreto pode levar Oscar neste domingo (15).

E ele conta a história do guardinha da esquina. Da Polícia Civil do Pernambuco. E a história de Marcelo, um homem que usa um nome falso para esconder uma história que envolve perda de soberania, privatização da universidade pública e, claro, a brutalidade dos militares do regime totalitário que durou de 1964 até 1985.

Quem é o Agente Secreto?

O quinto filme de ficção de Kleber Mendonça Filho abusa do folclore do recife, com a história midiática da Perna Cabeluda, e mostra como histórias como a de Marcelo não recebem o devido tratamento. Marcelo, interpretado brilhantemente por Wagner Moura, é na verdade Armando, um professor universitário que desenvolveu uma patente industrial.

No entanto, a ditadura militar brasileira foi primorosa, com ajuda de empresários, em privatizar os serviços públicos. Foi o começo do neoliberalismo que ganharia força nos anos 1990 e 2000. Armando, por defender suas posições, foi chamado de “comunista”, perdeu a esposa, foi separado do filho Fernando (também interpretado por Moura mais velho).

Marcelo é o verdadeiro Agente Secreto, acolhido por uma militante verdadeiramente de esquerda chamada Dona Sebastiana (a brilhante Tânia Maria, que ganhou capa da Elle merecidamente). E o filme desenvolve o processo de se esconder as pessoas que estavam verdadeiramente defendendo o Brasil.

Que eram verdadeiramente patriotas – diferente dos militares de 1977 e dos seguidores de presidentes sanguinários como Ernesto Geisel, mencionado levemente no filme.

Kleber Mendonça está bem vivo no filme

A narratividade de O Agente Secreto é bem sutil e cadenciada. Tem ditadura militar? Está nos pôsteres de Recife, na capa do Diário do Pernambuco (que é o jornal mais antigo do Brasil), no retrato do ditador que estava no poder na ocasião. Está na delegacia de polícia onde o agente está escondido e nos policiais.

Tem violência? Não no filme inteiro. Mas há uma sequência de tirar o fôlego, permeada por uma tensão permanente.

Tem viagem no tempo? Tem. E uma viagem que conta de uma maneira muito completa a história de gente comum numa ditadura militar. O Brasil estava sofrendo com o Exército no poder, mas tinha gente fazendo sexo na rua, tinham pessoas preocupadas com o resultado do jogo de futebol, tem a vida comum fluindo.

É um filme declaradamente de esquerda, mas que consegue penetrar em uma realidade pouco contada, pouco representada, que mereceria mais histórias nas telonas, nos documentários, na televisão, na internet.

Achei que Maria Fernanda Cândido foi muito pouco aproveitada. Wagner Moura, no entanto, é uma estrela que marca do primeiro ao último minuto. Ele e Fernanda Torres (em Ainda Estou Aqui) marcam um período brilhante de atuações que enfim contam a história de um período brasileiro vergonhoso.

 Agente Secreto, com Wagner Moura - Divulgação/Vitrine Filmes

Agente Secreto, com Wagner Moura – Divulgação/Vitrine Filmes

Um Brasil da vergonha que abre espaço para um Brasil muito melhor.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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