[Atenção: este texto contém spoilers sobre o final de Stranger Things]
Toda vez que uma série de muito sucesso precisa chegar ao final, há uma enorme expectativa para se eles irão acertar o fim. E isso não poderia ser diferente com Strangers Things, uma das séries de maior sucesso das últimas décadas. E, como esperado, o veredito está meio misto: tem gente que gostou do final, e tem aquelas pessoas que acharam a maior abominação dos últimos tempos.
E claro, essas últimas estão erradas.
Só pra ser claro: eu não quero entrar no ponto de “furos de roteiro”, porque essa é uma outra história que eu quero comentar em outro texto. Estou falando aqui de arcos narrativos no geral, sem aquele exagero de canais como Cinema Sins, que se um pequeno pedaço insignificante de uma cena não faz sentido, todo o arco narrativo daquela cena é inválido. Se você pensa desse jeito, eu só tenho duas coisas pra te falar: 1) você está errado e 2) eu tenho pena de você porque “diversão” deve ser um conceito inexistente na sua vida.
Quando enxergamos os arcos narrativos de forma geral, o final de Stranger Things usa muito bem um dos conceitos mais clássicos de se contar uma história, que é a narrativa circular. Este é basicamente um estilo de narrativa onde os personagens saem de um ponto, passam por todos os percalços da aventura, e terminam no mesmo ponto, mas mudados. Um bom exemplo disso é o final de O Senhor dos Anéis, que começa com os hobbits em uma vida pacata no Condado e termina com os hobbits em uma vida pacata no Condado. Tanto no início quanto no fim da história, o Condado é o mesmo – quem mudou foram os personagens.
No início, os hobbits achavam que a vida do Condado era apenas a vida como ela é, pois não tinham conhecimento de nada além de suas fronteiras. Mas, depois de uma viagem por terras inóspitas, correndo perigo de vida, encontrando magos e reis e seres abissais constituídos do mau em sua forma mais pura, eles retornam para casa com uma nova perspectiva. No fim da narrativa, os quatro heróis sabem que a vida tranquila e feliz do Condado é um enorme privilégio que poucas pessoas possuem – e carregam um conhecimento surgido de um trauma compartilhado que nenhuma outra pessoa ali fora dos quatro conseguirá entender. Sob essa nova perspectiva, alguns conseguem voltar a suas vidas antigas, se dedicando totalmente aos privilégios de não precisar lutar pela vida a cada instante (como o Sam), outros seguem fazendo outras aventuras menores (como Merry e Pippin) e outros não conseguem superar todo o trauma e não se enxergam mais como pertencentes aquele espaço (Frodo). Mas o fim de todos os quatro segue a mesma base de uma narrativa circular: retornar para o ponto de partida como uma nova pessoa.
E é exatamente isso que vemos no final de Stranger Things.

(Imagem: captura de tela/Netflix)
A história das crianças em Stranger Things
Essa narrativa circular fica muito clara no arco de história das crianças, que começa e termina exatamente no mesmo lugar: jogando uma partida de RPG no porão da casa dos Wheeler.
No fim, o porão tem uma pessoa a mais – a Max, que não fazia parte do grupo na primeira temporada – mas a composição é basicamente a mesma: as crianças que eram as “excluídas” da escola de Hawkins. E, neste sentido, faz todo o sentido a Eleven não estar no grupo no fim.
Como é meio que explicado na própria cena, ela nunca foi uma parte do grupo em si. Claro, ela é a protagonista da série toda. Mas uma coisa engraçada de narrativas é que elas são igual problemas de física: tudo depende do ponto de vista. E, do ponto de vista do grupo principal que nos foi apresentado jogando D&D no porão da casa de uma das crianças, a El não é um “personagem jogável”, mas um “NPC” que serve como o chamado para aventura – um item ou pessoa que aparece na vida dos aventureiros e se torna o motivo deles saírem de casa e arriscarem suas vidas em uma jornada inesperada.
E isso é claramente explicado na própria cena final da série com a personagem “Maga de St. Markovia”. Apesar de ser uma personagem central na aventura que eles estão jogando – sendo responsável por colocar o grupo na aventura que termina na batalha contra o vampiro Strahd von Zarovich e por aparecer no último instante para dar o golpe final e garantir a vitória do grupo – mas não é uma participante integrante da equipe que, após a batalha, é recompensada pelos moradores da vila que foi salva.
A narrativa das crianças terminam no mesmo lugar, mas elas não são as mesmas – e essa mudança fica claro no momento que elas não aceitam o final de “e eles viveram felizes para sempre” proposto por Mike. Elas viveram por situações que as crianças da primeira temporada nem conseguiriam imaginar, e essas experiências mudaram a visão de mundo delas. Elas não só cresceram, mas aprenderam através de experiências traumáticas que o conceito de “viveram felizes para sempre” não é algo simples de se alcançar, e que o conceito de felicidade é algo fluido e complexo, diferente para cada pessoa e situação. E a explicação que Mike dá para o que quer dizer exatamente um “felizes para sempre” para cada um dos personagens é um dos momentos mais tocantes de toda a série.

(Imagem: captura de tela/Netflix)
Arcos circulares para todos
O conceito de uma narrativa circular fica bem fácil de identificar no final das crianças, mas é possível notar também como ele é seguido no arco de outros personagens.
Assim como no começo da série, Hopper também termina no mesmo ponto em que começou: como xerife da cidade e sem uma filha. Mas o personagem não é mais o mesmo: a relação com Eleven mostrou pra ele que a perda de uma pessoa querida não precisa ser necessariamente o fim da própria vida. Ainda que ninguém vá realmente tapar o buraco causado pelo luto, ele descobriu que é possível encontrar outros motivos para sentir esperança e felicidade na vida ao se abrir para que outras pessoas façam parte dela. Assim, apesar de estar no mesmo lugar, ele não é a mesma pessoa; ao invés da perda de mais uma filha ter feito ele se fechar novamente para o mundo, ao pedir Joyce em casamento ele se abre para que uma nova pessoa entre oficialmente na vida dele para que ela continue a fazer sentido.
Apesar da dualidade de como termina o arco da Eleven, podemos dizer que ele também é algo circular caso a explicação do Mike de como ela sobreviveu seja verdadeira. Neste caso, ela termina a história da mesma forma como começou: sozinha e perdida em uma terra desconhecida. Mas enquanto no início este estado de solidão era resultado de uma fuga traumática, no fim ele é uma busca por recomeçar a vida. Em ambas ela precisa abandonar todas as pessoas que conhece, mas enquanto no começo da série esse é um abandono traumático e que nem a própria personagem entende bem o porquê, no fim ele é uma escolha feita para garantir a segurança não apenas dela, mas também de todos aqueles que ela ama. Morta ou viva, o fim da Eleven sempre será uma sacrifício heróico, mas ele ganha ares de circularidade caso ela ainda esteja viva.
Esta mesma circularidade também é encontrada na série como um todo, pois ela também termina da mesma forma como começou: com um grupo de crianças jogando D&D no porão da casa dos Wheeler. Assim que nós terminamos de ver a última aventura narrada por Mike, presenciamos os primeiros momentos da primeira aventura que será narrada por Holly. O fim de um ciclo é o início de um novo – um exemplo perfeito de que circularidade narrativa e o “ciclo da vida” do Rei Leão é praticamente a mesma coisa.

(Imagem: captura de tela/Netflix)
Bom não é perfeito – mas também não precisa ser
Claro, defender que o final da série foi bom não é a mesma coisa de dizer que ele foi perfeito, que não contém alguns furos ou inconsistências narrativas. Com certeza ele está cheio de todas essas coisas.
Mas, quando falamos de “um bom final” para uma série, filme ou videogame, o que estamos nos perguntando é: essa mídia criou uma narrativa coesa, com início, meio e fim que fazem sentido dentro daquele universo, respondem as perguntas principais levantadas pela trama e dá um final digno para heróis e vilões? Se um final faz tudo isso, ele pode ser considerado “bom”. E é por isso que, neste sentido, o final de Stranger Things é sim um final bom.
O último episódio conseguiu fazer tudo aquilo que um capítulo final necessita: respondeu a todas as principais perguntas da trama, garantiu uma derrota final aos vilões (tanto Vecna quanto o exército dos EUA) e define os caminhos futuros de cada um dos protagonistas. E, o mais importante: faz isso sem desvirtuar o conceito original da série ou tomar saltos narrativos que fazem com que as atitudes tomadas pelos personagens não façam sentido.
Um exemplo muito claro de uma série com o primeiro problema é How I Met Your Mother. (ATENÇÃO: spoilers sobre o final da série neste parágrafo). Durante 207 episódios, o conceito da série era muito claro na cabeça de todos: um Ted do futuro estava contando para os filhos todas as desventuras da sua juventude que o levaram a conhecer a mãe das crianças. Mas o último episódio reservou uma última virada que desvirtuou a série inteira. Com uma revelação nos últimos segundos, HIMYM passou a ser a série sobre um cara viúvo que está tentando explicar para os filhos sobre o porquê o verdadeiro amor da vida dele é a tia Robin, meio que tentando pedir permissão para (voltar a) correr atrás delas após a morte da esposa. É um final que torna Ted um personagem ainda mais escroto do que ele já parecia ser durante os mais de 200 episódios, e faz com que quem assiste se sinta enganado e sinta que as horas dedicadas foram uma enorme perda de tempo.
Já um exemplo do segundo tipo mais comum de final ruim é Game of Thrones. (ATENÇÃO: spoilers sobre o final da série neste parágrafo). Para quem leu os livros, os eventos do episódio final da série provavelmente eram muito próximos daqueles que George R.R. Martin estava mesmo imaginando. Mas o problema não são os eventos em si, mas a forma como eles aconteceram. A série não se preocupou em mostrar o lado tirânico da Daenerys que é possível ver nos livros; ao contrário, fez questão de construir ela como uma revolucionária, benfeitora e heroína – e aí ficou difícil mesmo engolir a mudança súbita de posição. E isso meio que aconteceu com praticamente todos os personagens que terminaram a série vivos – apesar do evento final de cada um não ser exatamente inesperado, nenhum deles teve o desenvolvimento necessário para se chegar naquele estado de maneira lógica e natural. O problema de Game of Thrones não é exatamente como a série acabou, mas a impressão de que umas duas temporadas de desenvolvimento dos personagens foram ignoradas.
Incrivelmente, Stranger Things não sofre de nenhum desses problemas. E, por isso, é um final bom. Claro, pode não ser o seu final, ou o final que você imaginava que a série estava reservando. E aí é uma coisa de gosto pessoal. Mas, quando falamos de narrativas da forma geral, Stranger Things conseguiu fazer algo extremamente difícil para uma série tão famosa e com tantos personagens: entregar um final para todos eles que faz sentido com os arcos de narrativa individuais e gerais de cada um dentro da trama.
E me lembra muito de Vingadores: Ultimato. Não que seja perfeito, ou não tenha suas inconsistências – mas Stranger Things se tornou um negócio tão grande e complexo em suas cinco temporadas que tudo indicava que o fim seria uma bagunça. E só o fato deste fim existir – e de uma forma que é consistente com toda a narrativa até ali – faz dele um sucesso automático.
Então eu acredito que a polêmica sobre o fim de Stranger Things não é uma polêmica sobre qualidade, mas sobre educação midiática. Porque se você tem um mínimo conhecimento de arcos narrativos e entende as dificuldades de contar uma história, vai achar que os irmãos Duffer conseguiram entregar um bom trabalho. Um bom trabalho não porque é perfeito, mas porque eles conseguiram fechar certinho uma narrativa que tinha tudo para se tornar uma bagunça temática onde nada é finalizado.
*As cinco temporadas de Stranger Things estão disponíveis no catálogo da Netflix.
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.


Aplaudindo de pé aqui! Excelente análise!
Análise ruim demais. É uma obra claramente mal acabada, cujo final não entregou o que os irmãos prometeram. As pessoas estão percebendo o final de Stranger Things como algo ruim e vem pessoas como você tentando dizer o porquê as pessoas não deveriam achar esse final ruim. Só de existir uma matéria dessas, já diz sobre a situação. Acho que nós como consumidores temos que reclamar sim dessas porcarias.