[Atenção: este texto tem spoilers sobre as tramas de O Justiceiro: Uma Última Morte e dos jogos das franquias Red Dead Redemption e God of War]
Justiceiro: Uma Última Morte estreou semana passada no Disney+ com uma recepção meio mista: teve gente que amou e teve quem odiou o “filme” (entre aspas porque, por ser uma lançamento no esquema “apresentação especial” da Marvel, não é exatamente um filme, mas também não é exatamente uma série. É mais como se fosse uma minissérie tão mini que tem apenas um episódio).
Aqui eu não quero entrar no mérito de se o mais recente lançamento da Marvel é bom ou ruim, porque especialmente para essa obra esta percepção é bastante subjetiva (pessoalmente, eu adorei, mas eu também consigo entender o porquê de muita gente não ter gostado). O que eu quero falar mesmo é sobre o quanto que este especial do Justiceiro me lembrou da tramas dos jogos de Red Dead Redemption.
Apesar de trazer duas tramas bem diferentes e com personagens diferentes, ambos os games de RDR tratam de um tema em comum: o ciclo infinito da vingança – um conceito de que, ao buscar um retorno violento por uma violência recebida, você estaria apenas garantindo um ciclo que irá resultar em apenas mais violência e que nunca irá se romper. Esse conceito é um dos mais importantes para a história das narrativas, estando presente em algumas das primeiras histórias da literatura (como a Ilíada e a Odisseia), e na justificativa de diversas figuras heroicas – inclusive as mais modernas. Afinal, não são apenas heróis clássicos que participam deste ciclo, e um dos exemplos mais fáceis de explicar ele é com o Batman. Afinal, a existência dele como herói é uma resposta direta ao assassinato dos pais, e a existência dele serve apenas para perpetuar um ciclo de vingança que se iniciou quando ele era criança.
Uma das melhores histórias sobre esse ciclo está na franquia de jogos God of War, principalmente os mais recentes. O relacionamento entre Kratos e Atreus se baseia em uma tentativa de quebra desse ciclo de vingança e violência – algo que é tão “texto” do jogo que o próprio Kratos fala abertamente sobre em God of War (2018). Em uma conversa com Atreus, ele afirma que o motivo de ter escondido sobre o passado dele como um deus grego foi justamente para tentar protegê-lo de participar do ciclo de vingança que marcou a vida dele como uma divindade – vida esta que terminou com uma terra destruída e ele sendo obrigado a recomeçar a vida num local onde ninguém o conhecia.

God of War Ragnarök. Foto: Divulgação
O ciclo de vingança e violência também é um tema presente na franquia Red Dead Redemption, que trás ainda uma outra camada para este conceito: o de forças externas que não permitem a pessoa a abandonar o ciclo mesmo que ela queira. Em Red Dead Redemption 2, o fator externo é a ganância de Dutch, que arrasta os personagens da comitiva para uma briga que muitos deles não gostaria de ter comprado. Isso se repete em Red Dead Redemption, onde o passado de John Marston é usado para forçá-lo a voltar pra o ciclo de violência e vingança que ele achava que tinha conseguido escapar, e agentes do governo o obrigam a buscar uma vingança que o personagem já não mais buscava.

Esse conceito do ciclo de vingança e violência também está presente em O Justiceiro: Uma Última Morte. Mas com um conceito que eu achei incrível para explicar a existência do personagem: o ciclo infinito da vingança não como motivador da ação, mas o catalisador de uma descobrimento sobre si mesmo.
No começo da série, vemos Frank Castle batalhando contra uma noção nova para ele: o fim de sua missão pessoal. Porque, assim como o Batman, a existência do Justiceiro também é fruto de uma violência – o assassinato da filha e esposa – e justificada por um desejo de vingança. Mas, ao contrário do Homem-Morcego, a promessa de Frank Castle é muito mais direta: ele não quer se vingar do crime como um todo, mas apenas daqueles criminosos específicos que estavam envolvidos com a morte de sua família.
E, no começo de Justiceiro: Uma Última Morte, esta missão foi cumprida e todos estão mortos. E é neste momento que Castle se pergunta: e agora?
Nesta hora, a tradução do nome do personagem atrapalha para algumas pessoas que não conhecem a língua inglesa entender aquilo que o motiva. Porque, ironicamente, o Justiceiro não busca nem nunca buscou justiça. No original, o nome dele é “Punisher”, cuja tradução mais semanticamente correta seria “O Punidor”. Ele não é um justiceiro (alguém que busca fazer justiça), mas um carrasco (alguém que busca trazer a punição no sentido mais extremo, a pena de morte).
Então, o que acontece com a pessoa cuja única existência é punir não tem mais ninguém para punir? Este é o momento mais vulnerável do personagem. Já vimos Castle preso, torturado e a beira da morte ao longo das temporadas de Demolidor, Justiceiro e Demolidor: Renascido, mas é em Uma Última Morte a primeira vez que vemos o personagem realmente vulnerável, fraco e sem rumo.
E isso muda justamente quando ele é jogado de volta em um ciclo de vingança, e praticamente a cidade toda é jogada contra ele pela matriarca sobrevivente de uma família de mafiosos que ele aniquilou. Com um plano de “tacar fogo no parquinho com Castle dentro”, a roda da vingança continuou girando, sem parar e sem ligar para qualquer inocente que estivesse no caminho.
É justamente neste contexto que algo desperta dentro de Castle – uma ignição onde o personagem se tornou um pavio literal em chamas. Neste momento inicia a que talvez seja a melhor sequência de ação já filmada para qualquer obra da Marvel, e Uma Última Morte se torna Operação Invasão, com o Justiceiro sozinho contra uma turba ensandecida pronta com o único objetivo de matá-lo enquanto ele tenta escapar do prédio.

(Imagem: captura de tela/Disney+)
Ao sair vitorioso, Castle se vê novamente em um conflito ético transformado em literal. Uma encruzilhada entre duas escolhas: matar a matriarca da família Gnucci e manter a roda de vingança girando, ou deixar de lado essa necessidade de se vingar para salvar uma família inocente que estava sendo atacada sem piedade em meio ao caos do qual ele era o culpado?
Frank faz a escolha heroica de salvar a família, mas não por um motivo heroico. E isso é mostrado na cena final de Uma Última Morte, quando o Justiceiro retorna – com uniforme e tudo – numa nova fase de sua busca por vingança. Agora ele não mais busca uma punição egoísta daqueles que lhe fizeram pessoalmente o mal, mas se torna um mecanismo de punição para aqueles que não tem força para se defender sozinhos.
Enquanto God of War disserta sobre a dificuldade de quebrar o ciclo vicioso da vingança e Red Dead Redemption sobre a tragédia de ser forçado a participar desse ciclo mesmo contra a própria vontade, O Justiceiro: Um Última Morte traz um terceiro ponto para essa discussão ao tornar Frank Castle o próprio círculo. E é isto que faz de Frank Castle um “anti-herói” diferente de todos os outros que já vimos no MCU. Até então, um “anti-herói” era alguém que efetua atos heroicos por motivos egoístas; Castle é alguém que efetua atos grotescos por motivos heroicos.
Eu espero que O Justiceiro: Uma Última Morte não seja o fim do personagem no MCU – e eu acredito que não será. Porque seria uma pena não usarem mais o personagem depois de finalmente acertarem em cheio em criar um motivador para Frank Castle que vá além da vontade de vingar a família. O novo Justiceiro nos ajuda a entender que a busca por vingança não necessariamente precisa ser uma jornada egoísta, e eu gostaria muito de ver mais histórias usando esse conceito.
*O Justiceiro: Uma Última Morte está disponível no catálogo da Disney+.
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

