Publicado originalmente no Storia Brasil em 2017, na Coluna de Pedro Zambarda. Republicado em 6 de julho de 2018 no Medium.
José João Freitas Barbosa Pereira Coutinho tem 40 anos e é colunista dos jornais Correio da Manhã (Portugal) e Folha de S. Paulo (Brasil). Queridinho da grande imprensa brasileira, teve um livro lançado em 2014 pela editora Três Estrelas e com orelha do colunista de extrema-direita Reinaldo Azevedo. “Há muito não se publicava um pequeno grande livro como este (…). Edmund Burke é o Virgílio de Coutinho, o personagem que o conduz pelos círculos, fossos e vales em que se tentou exilar o pensamento conservador, confundido ora com reacionarismo, ora com anacronismo”, elogia Reinaldão.
O colunista do site da revista Veja está certo e o livro é de fato muito interessante. Seu ponto de partida é certo sobretudo nos pressupostos teóricos. Professor de ciência política na Universidade Católica Portuguesa, Coutinho inicia o manuscrito insistindo na ideia que não existe um único conservadorismo, mas “conservadorismos” de diferentes raízes. E traça o início do conservador moderno com o irlandês Edmund Burke, que foi um dos maiores críticos da Revolução Francesa.
João Pereira Coutinho então percorre Alexis de Tocqueville, James Mackintosh e Anthony Quinton. Entre os três, há o reconhecimento das falhas do pensamento revolucionário, a sensibilidade de entender que existe uma justificativa naturalista sobre o conservadorismo e que uma de suas raízes mais fortes vem da noção que todos os homens “são imperfeitos”.

A ontologia é bem desenvolvida nos oito capítulos. E quando falo em ontologia, falo do exame filosófico dos elementos que constroem o argumento conservador.
Num outro texto, abordei que a esquerda tende a ser dialética, trazendo teses e antíteses para resultar numa síntese, a tese transformada. O conservadorismo faz a trajetória oposta e conserva uma tese, se ele acredita que aquele costume faz parte da natureza humana. O conservadorismo é naturalista per se.
Ao mesmo tempo, a esquerda tende a torná-lo equivalente ao comportamento reacionário. Reacionário vem de reação. E ele não é meramente conservar características, mas reagir contra mudanças, sejam elas revolucionárias ou não.
Baseado em Burke e em diferentes pensadores, Coutinho presta um grande serviço ao pensamento conservador no texto deste livro. E para críticos do conservadorismo, como eu próprio, é uma boa obra de referência para “entender o inimigo”.
Que fique claro que eu próprio sou um pouco conservador em algumas das minhas posições. É por isso que sou de centro-esquerda.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.
