Publicado originalmente no dia 5 de março de 2017 na minha conta do Medium. Este texto fala sobre o final do filme. Se você não viu, vá ver e não venha reclamar que eu não avisei. Ok?
Estava num sábado sem nada melhor a fazer, a não ser liquidar pendências de freelance, e decidi reservar um tempinho pra assistir Logan nos cinemas. O filme estreou no dia 2 de março e eu vi no dia 4. Vi uma cópia dublada — e, sim, não acho problema. Quem conhece o dublador Isaac Bardavid sabe do que eu estou falando.
Muita gente chorou com este filme novo do personagem Wolverine da Marvel Comics, que dá uma surra em longas como X-Men Origins:Wolverine (2009) e Wolverine: Imortal (2013).
Logan é uma produção que aposta no “menos é mais” e leva isso a risca.
Logan é um filme sobre pai e filha. É um filme sobre como seria o mundo real com os X-Men. É um filme sobre velhice. E é um filme sobre morrer.
Tenho 28 anos. Isso não é nem perto de estar idoso, mas já vivi algumas coisas, de decepções e sucessos. Logan trata justamente sobre decepções.
O enredo traz três personagens principais que fazem toda a história girar, que são James “Logan” Howlett / Wolverine (Hugh Jackman), Charles Xavier / Professor X (Patrick Stewart) e Laura / X-23 (Dafne Keen). Os três atores que interpretam os protagonistas o fazem de maneira exemplar, em específico Dafne.

Silenciosa em pelo menos metade do filme, Laura é revelada como filha de Logan num processo de clonagem dos X-Men originais e de outros mutantes. Estamos num futuro distópico que é explicado vagamente no filme. Ela tem os mesmos poderes de Wolverine, incluindo as garras nas mãos e pés com o fator de cura.
O homem por traz da criação de Laura é um cientista chamado Zander Rice (Richard E. Grant), que é vinculado ao projeto Arma X que criou o Wolverine original e tentou criar uma nova liga de mutantes mirins. Com o fracasso do projeto de Laura, Zander criou o mutante X-25, que é um Wolverine idêntico ao original e verdadeiro vilão do filme.
Enquanto Laura e Logan funcionam na lógica de pai e filha — mesmo que Wolverine não a aceite de maneira correta a priori — , Charles Xavier é a nossa ligação com a história dos X-Men. Ele se refugiou com Caliban (Stephen Merchant), antigo inimigo, sofre de problemas mentais e está com 90 anos.
O próprio Logan sofre degeneração. Com seu fator de cura falhando, o Adamantium que o deixou imortal por centenas de anos está se esvaindo do seu corpo. Logan sente o metal destruir sua estrutura e já perdeu todos os amigos dos X-Men, que foram caçados e mortos.
Ele, no fundo, deseja morrer e sofre com as coisas que fez.
O filme acerta muito ao mostrar os X-Men em gibi e brincar com o contraste entre quadrinhos e mundo real. Afasta, com as cenas de violência explícita e realismo o público infantil dos super-heróis. Mas traz a tona a verdadeira natureza dos mutantes criados por Stan Lee na Marvel: A luta dos negros, das minorias, das mulheres, dos gays e do que é diferente do padrão branco e machista.
Meu herói favorito da Marvel sempre foi Spider-Man, mas Wolverine ocupa um espaço especial porque é um personagem que fala muito sobre maturidade.
Como um guerreiro imortal, ele simboliza de uma certa forma o espírito do tempo. E é interessante que sua morte aconteça nas mãos dele próprio.
X-25 mata o Professor Xavier e o próprio Logan. Ele só é morto por Laura num momento de descuido.
E a cena final, com o túmulo de Logan transformado de uma cruz para um “x” deve ser imortalizado como uma das mais belas fotografias de filmes inspirados em HQs.
Logan é um filme aflitivo, sufocante. Mas é um colírio para os olhos.
Há inspirações no faroeste de Clint Eastwood e nos road movies (filmes de estrada).
É um filme pipoca feito com uma sensibilidade fora do comum. Por isso merece todos os méritos em sua categoria. É certamente muito melhor do que os filmes do Batman de Nolan (que se tornaram repetitivos apesar de Dark Knight) e do comercial Avengers.
Só tem uma falha: O co-vilão Donald Pierce (Boyd Holbrook) e sua liga de ciborgues Reavers são completamente deslocados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.
