Review do jogo indie brasileiro Deathbound após 40 horas de gameplay. Por João Custódio - Drops de Jogos

Review do jogo indie brasileiro Deathbound após 40 horas de gameplay. Por João Custódio

Um diálogo brasileiro com o soulslike

Por João Custódio. Publicado com permissão do autor no LinkedIn.

Deathbound é mais do que um soulslike brasileiro: é um jogo com identidade própria

Deathbound é um daqueles jogos que deixam claro, logo nas primeiras horas, que não quer apenas reproduzir a fórmula Souls. Ele quer dialogar com o gênero, tensionar expectativas e propor algo próprio, tanto em sistemas quanto em narrativa. Luto, fé, fanatismo, identidade e o peso de carregar outras vidas não aparecem aqui como pano de fundo decorativo. Eles estão no centro da experiência.

Desenvolvido pela Trialforge Studio e publicado pela Tate Multimedia, Deathbound chegou em agosto de 2024 para PC e consoles após um longo período de desenvolvimento e exposição em festivais. Antes mesmo do lançamento oficial, o jogo já chamava atenção por sua ambição, identidade e escolhas de design pouco convencionais dentro do gênero.

E isso não aconteceu por acaso.

Trialforge, reconhecimento e o caminho até o lançamento

A Trialforge construiu Deathbound com calma e consistência. O projeto ganhou destaque ainda em estágios iniciais, vencendo o prêmio principal do SBGames 2020 e acumulando indicações naquele ano, algo raro para um jogo independente em desenvolvimento. Desde então, o título seguiu aparecendo em seleções, festivais e premiações, consolidando seu espaço como um dos projetos mais ambiciosos do cenário indie nacional.

Esse histórico ajuda a entender por que Deathbound não chegou “do nada” em 2024. Ele já vinha sendo observado, discutido e testado por quem acompanha a indústria mais de perto.

Outro fator que ajudou a ampliar esse alcance foi a forma como o jogo conseguiu atravessar a bolha. Em determinado momento, Deathbound viralizou internacionalmente por um motivo específico e muito simbólico: a presença de um personagem que luta capoeira. Em um gênero historicamente dominado por referências europeias e orientais, esse recorte cultural chamou atenção, gerou vídeos, discussões e curiosidade genuína fora do Brasil.

A história de Deathbound e o peso de carregar outras vidas

A narrativa de Deathbound se passa em Ziêminal, um mundo construído a partir do choque entre fé e ciência. Essa tensão não serve apenas como contexto. Ela fundamenta as regras do universo e justifica os sistemas que o jogador utiliza ao longo da jornada.

Aqui, você não é um herói solitário. Você absorve essências de guerreiros caídos, incorpora suas memórias, suas crenças e suas dores. Cada personagem carregado representa uma visão diferente daquele mundo e reage de forma distinta aos eventos, ao ambiente e uns aos outros.

O jogo evita explicações excessivas. Ele prefere sugerir, provocar e deixar espaços em branco para interpretação. Para quem já está acostumado com soulslikes, isso funciona muito bem. O mundo fala através da ambientação, dos diálogos pontuais e das consequências das escolhas, sem precisar transformar tudo em exposição direta.

Existe desconforto aqui, e isso é intencional. Deathbound não busca épica heroica tradicional. Ele aposta em um tom mais introspectivo, às vezes até opressivo, que conversa diretamente com seus temas centrais.

Sistemas de combate e o diferencial da party dinâmica

O grande diferencial de Deathbound está no combate. Em vez de controlar apenas um personagem, o jogador monta uma party com até quatro essências e pode alternar entre elas em tempo real, dentro e fora das lutas.

Essa troca não é um recurso secundário, mas sim é o coração do sistema. Jogar Deathbound como se fosse um soulslike tradicional, focando em um único estilo, tende a ser frustrante. O jogo pede leitura constante, adaptação e entendimento das funções de cada essência.

As trocas entre as essências influenciam no dano e efeitos causados aos inimigos, tornando uma estratégia fundamental no combate.

Na prática, isso cria três camadas de decisão. A primeira é a leitura clássica do gênero, com esquivas, parries, gerenciamento de stamina e posicionamento. A segunda é a composição da party, entendendo sinergias, fraquezas e papéis de cada personagem. A terceira é a adaptação em tempo real, trocando de essência para corrigir erros, explorar aberturas ou responder a situações inesperadas.

Esse sistema dá profundidade ao combate e evita a cristalização de um meta dominante. Cada jogador acaba encontrando soluções diferentes para os mesmos desafios, o que aumenta a longevidade e a personalidade da experiência.

Minha experiência com Deathbound

Visualmente, Deathbound é impressionante do início ao fim. Existe um cuidado muito claro com direção de arte e construção de ambientes, e isso impacta diretamente no prazer de jogar. São sete mapas principais, todos com identidades bem definidas e propostas distintas, passando por esgotos, ruas, cidades, laboratórios e igrejas, sem sensação de repetição. Cada área tem ritmo próprio, desafios específicos e leitura clara de espaço.

Aqui entra um ponto pessoal importante. Foi o segundo soulslike mais prazeroso que já joguei, ficando atrás apenas de Bloodborne, que segue sendo meu jogo favorito do gênero. Considerando o quanto o mercado está saturado de jogos inspirados em Souls, isso diz muito sobre o impacto real da experiência.

O desafio do jogo é altíssimo, mas extremamente recompensador. Deathbound exige leitura, execução e domínio dos sistemas. Não existe espaço para jogar no automático. O New Game Plus, necessário para a platina, eleva esse desafio de forma brutal. O chefe final, em especial, foi uma das experiências mais difíceis que já tive no gênero. Levei cerca de 10 horas para derrotá-lo no NG+, o que mostra o quanto o jogo cobra paciência, adaptação e estratégia.

Um dos maiores acertos está no elenco jogável. Todos os sete personagens possuem jogabilidade única, identidade clara e conexão direta com a lore do mundo. Não existe um meta dominante. Não existe personagem obrigatório. O que existe é leitura de cenário, entendimento de sinergias e escolha consciente de quem entra na party.

As relações entre os personagens impactam diretamente a equipe, gerando buffs e debuffs de acordo com as combinações escolhidas. Isso adiciona uma camada estratégica muito interessante, porque você não está apenas escolhendo quem causa mais dano, mas sim como essas identidades convivem e se influenciam. Isso muda completamente a forma de abordar encontros e chefes.

Existe também um fator que pesa bastante na minha avaliação. Deathbound é um game indie brasileiro. E não no sentido condescendente. Ele se sustenta tecnicamente, artisticamente e mecanicamente ao lado de produções internacionais do gênero. Não é um bom jogo “para um jogo brasileiro”. É um bom jogo, ponto. O fato de ter sido desenvolvido aqui só reforça o nível de maturidade que a indústria nacional pode alcançar quando existe visão, tempo e execução.

Em termos técnicos, minha experiência foi bastante positiva. Tive apenas um crash durante toda a jogatina e um bug que duplicou inimigos em uma área, resolvido ao reiniciar. As transições de mapas apresentam quedas pontuais de performance, com oscilações na taxa de quadros e pequenos lags, mas nada que comprometa a gameplay ou a progressão, já que ocorrem fora do combate.

O jogo também recompensa quem explora. Missões paralelas oferecem itens especiais, e para quem busca a platina, é essencial prestar atenção na narrativa, nos diálogos e nas decisões.

A trilha sonora é excelente, mas o grande destaque absoluto fica para a dublagem. É, sem exagero, um dos melhores trabalhos de vozes que já vi em games. Não existe dublagem em português, o que pode frustrar parte do público, mas considerando que os personagens vêm de culturas e origens diferentes, os sotaques e interpretações ficaram impecáveis.

Nota final

Nota: 9/10

Deathbound é um soulslike que escolhe um caminho mais exigente, mais autoral e mais profundo. Em troca, entrega uma experiência intensa, memorável e cheia de identidade. É um jogo que respeita o jogador, desafia de verdade e permanece na memória depois que os créditos sobem.

Made in Brazil Sale e o momento certo para jogar

Vale aproveitar o timing. Em fevereiro acontece a Made in Brazil Sale, tanto na Steam quanto na Nuuvem. É uma iniciativa importante para dar visibilidade aos jogos desenvolvidos no país e facilitar o acesso a projetos como Deathbound.

Se você ainda não jogou, essa é uma ótima oportunidade para conhecer um dos soulslikes mais interessantes dos últimos anos e, ao mesmo tempo, apoiar um estúdio brasileiro que entregou um trabalho ambicioso, autoral e extremamente competente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments