Uma Escola Atrapalhada: o melhor filme ruim que passava na Sessão da Tarde - Drops de Jogos

Uma Escola Atrapalhada: o melhor filme ruim que passava na Sessão da Tarde

Lá em 1990 engolimos seco este retrato malfeitão da nossa juventude. Hoje, quarentões, aplaudimos esta obra prima do cinema brasileiro. Bem, depende de como você define o que é uma obra prima…

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Quando eu era uma criança metida a crescidinha, lá na virada dos anos 80 para os 90, nas sessões da tarde o que mais se via eram filmes juvenis cujas histórias aconteciam em escolas, colégios ou cursos de verão — e quem mais aí também pensou imediatamente no Chainsaw fazendo o Sr. Shoop de bobo? 

Enfim, muitos desses filmes ainda são verdadeiros clássicos do gênero “pastelão estudantil de quarenta anos atrás” e parece que nunca vão perder a graça. Mas vamos combinar uma coisa: esses high schools norte-americanos pouco (ou quase nada) tinham a ver com as escolas brasileiras. Ao menos, com a escola que eu frequentei, que mal tinha cadeiras para todo mundo, que dirá armários individuais ou aulas sofisticadas onde os alunos podiam fazer merda com experimentos científicos, e coisas do tipo.

Aí aconteceu o que eu não esperava: assisti, pela primeira vez, a um “filme de colégio” feito no Brasil, por brasileiros e para brasileiros. Este texto poderia tomar o exato rumo que talvez você esteja esperando a partir deste ponto, mas o problema é que Uma Escola Atrapalhada não mudou nada nesse sentido. Continuei sem me identificar com o que vi ali, porque o filme em questão retrata uma espécie de internato particular cheio de playboyzinhos abestalhados e funcionários de índole no mínimo questionável. Uma turminha do barulho aprontando muitas confusões, de fato — mas de um jeito bem bosta, infelizmente.

No fundo, o tal “filme de colégio” brasileiro acabou sendo mais do mesmo: aquele mesmo high school americano que nada tinha a ver com a experiência da maioria dos jovens brasileiros. De diferente mesmo, só o idioma. 

Acredito que a ideia tenha sido mesmo copiar o estilo Hollywood, começando pela trilha de abertura: um pop brega cheio de sintetizadores, com uma letra quilométrica e sem sentido, cujo refrão é “Que aventura arriscada/Foi dar bola pra você/Nessa escola atrapalhada/Temos muito o que aprender”. Porém, vemos também uns bons toques típicos das produções nacionais, mais especificamente dos filmes dos próprios Trapalhões: clipes musicais totalmente fora de contexto, merchandising mal disfarçado e muitas figuras pop da televisão.

Até aqui, só meti o pau em Uma Escola Atrapalhada, e você talvez esteja se perguntando por que raios eu disse, no título, que este é o melhor filme ruim da Sessão da Tarde. Então vamos falar de coisa boa? Nada de iogurteira, vamos falar do elenco da produção — provavelmente o que mais me encanta nesta maravilha.

Supla brilha muito no elenco de Uma Escola Atrapalhada

Além dos já citados Trapalhões, que fazem apenas uma ponta (Didi obviamente é o que aparece mais em cena; Mussum, como sempre, é o mais engraçado, e temos neste filme a última atuação cinematográfica de Zacarias), o elenco de Uma Escola Atrapalhada também traz estrelas como Angélica, Fafy Siqueira, os garotos do Polegar (com direito a Rafael Ilha pagando de galã), um jovem e já brilhante Selton Mello, Gugu Liberato e ele, a cereja do bolo, que na minha opinião é um dos melhores humoristas do Brasil: Supla.

Sério, pessoal: o Supla é a coisa mais engraçada desse filme, que deveria ser uma comédia, mas falha miseravelmente na maioria das tentativas de piadas. O humor involuntário causado pelo Papito a cada vez que abre a boca e solta alguma de suas frases de bad boy com aquele sotaque meio New York, meio Jardins, é simplesmente irresistível. Isso sem falar de sua indumentária cheia de camisetas rasgadas com a barriga de fora tipo Rocky 3 e acessórios de punk de boutique. O linguajar peculiar do rapaz e sua atitude de menino mau são garantias de riso cada vez que entra em cena.

E aí vem o pulo do gato: o filme, sem querer, virou um registro antropológico. Não sobre juventude, mas sobre a fantasia de juventude que a TV embalsamou e vendeu em VHS como se fosse um retrato da nossa vida.

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Capa e contracapa da fita VHS de Uma Escola Atrapalhada

Sobre o roteiro tenho muito pouco a dizer. É só um amontoado de clichês e dramas adolescentes como paixões arrebatadoras, amores não correspondidos, gravidez indesejada, assédio sexual por parte da zeladora do colégio, enfim… temas “normais” na vida do jovem brasileiro de classe média alta nos anos 90 — ”normais” entre aspas, no sentido de “isso é um absurdo mas na época ninguém via problema algum”.

No meio disso tudo, rola um fiapo de história sobre dificuldades financeiras do colégio e um plano de venda do imóvel a la Doutor Abobrinha, daqueles em que o vilão parece ter sido escrito num guardanapo com gordura de coxinha — e também um interesse amoroso de Didi por uma professora do colégio, no maior estilo Plunct Plact Zum (já que o rolo dos dois também não vai a lugar nenhum).

Mas quem se deu bem foi o grupo Polegar

Por sinal, romances mornos são quase regra por aqui, já que o casal principal Tamí (Angélica) e Carlão (Eduardo Smith Vasconcelos Suplicy — ele mesmo, o Supla) passa o filme todo naquele chove-e-não-molha de novela das seis. Primeiro se odeiam, chegando a sair na porrada, depois se apaixonam, depois brigam por um motivo besta e finalmente se apaixonam de novo. Mesmo assim, o máximo de carícias mostrado entre os dois é um abraço meio de feliz aniversário e uma insinuante mordiscada no dedo aplicada pelo Papito na futura senhora Huck. Sim, é só isso mesmo. E você fica olhando pra tela tentando entender em que momento a paumolescência virou ideal de romance adolescente. Só quem se dá bem por aqui são os caras do Polegar, que (além de algumas gatinhas) ganham como prêmio do show de talentos do colégio uma viagem para Aruba (destino da moda na época), e fecham o longa com um magnífico clipe acompanhado de um jabá da extinta Varig (ou seria a Vasp?) — porque nada grita mais “absolute cinema” do que encerrar com uma publi disfarçada de videoclipe.

Bom, caros leitores, se vocês tiverem estômago e muito pouco o que fazer de suas vidas, esse filme é uma ótima pedida para reunir seus amigos mais sem noção, encher a cara e morrer de rir da vergonha alheia. 

Uma Escola Atrapalhada não é só mais um filme adolescente bobo que fez tremendo sucesso nas tardes da televisão aberta décadas atrás, até praticamente cair no esquecimento e ser um ilustre desconhecido dos jovens de hoje em dia — esses mesmos que têm idade para serem meus filhos. Uma Escola Atrapalhada é um passeio audiovisual pelo maravilhoso Museu do Constrangimento Brasileiro. E sabe quem é o guia turístico? O Supla, claro. Nota 10.

Ficha técnica de Uma Escola Atrapalhada

País: Brasil
Ano de produção: 1990
Duração: 90 minutos
Direção: Del Rangel
Elenco: Angélica, Supla, Fafy Siqueira, Jandira Martini, Selton Mello, Gugu Liberato, Renato Aragão, Dedé Santana, Mussum, Zacarias, Grupo Polegar

Onde assistir a Uma Escola Atrapalhada

Depende do dia em que você estiver lendo este artigo. No dia desta publicação, a dica seria ver no Prime Video. Amanhã, vai saber… então se você assina o streaming da Amazon e quer ver ou rever o stand-up comedy não intencional de Supla em Uma Escola Atrapalhada, melhor não deixar para depois.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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