Muita gente sonha em entrar no “jornalismo de games” imaginando que vai poder cobrir eventos internacionais, conversar com celebridades da indústria e ganhar jogos de graça antes do lançamento. E eu entendo o hype que se cria em torno de tudo isso, porque é mesmo algo legal da área. Mas tem um problema: isso – ou só isso – não é jornalismo. E um dos melhores exemplos do que realmente é jornalismo de games está no livro Videogame Crash.
Antes de continuar, deixa eu falar sobre o elefante branco na sala: sim, este é o livro escrito por Pedro Zambarda – também conhecido como o editor-chefe e fundador aqui desse Drops, meu chefe e o cara que me manda um pix todo mês. Então, é claro que pode haver uma questão ética envolvida aqui.
Mas, como eu não contribuí uma única vírgula para o livro e não estou ganhando um centavo com a venda, acho que tenho distanciamento suficiente para escrever uma crítica séria dele.
E com isso claro, eu posso falar que sim, Videogame Crash: do Marco Legal dos Games às demissões em massa é um livro que precisa ser lido por qualquer pessoa que se interessa pela indústria de jogos.
O que é Videogame Crash?
Videogame Crash: do Marco Legal dos Games às demissões em massa é o primeiro livro de Pedro Zambarda publicado pela Critical Hit Books, abordando as questões do Marco Legal dos Games e das demissões em massa que afetam a indústria dos videogames nos últimos anos.
O livro traz um formato híbrido, que mistura coletânea de reportagens com relatos pessoais. O conteúdo principal é uma organização temporal de todas as reportagens que o Drops fez desde 2022 sobre o Marco Legal dos Games. Essas reportagens traçam uma linha do tempo de toda a trajetória desta lei, que vai desde a criação do projeto pelo deputado Kim Kataguiri (sim, o cara que já mandou uma foto da bunda pro Zambarda), a tentativa de desvirtuamento do projeto pelas empresas de apostas, a luta para explicar que “fantasy games” não tinha nada a ver com videogames, a vitória aos 45 do segundo tempo e os esforços para garantir que o presidente Lula assinasse o projeto e transformasse ele na lei nº 14852.
E é entre as reportagens que Pedro – que participou ativamente de todo esse processo – traz um tom mais “biográfico” para a história, contextualizando sobre a experiência pessoal dele em meio a todo o turbilhão que foi a aprovação do Marco Legal dos Games. Ele também conta diversas histórias de bastidores que não apareceram nas reportagens, e que ajudam não apenas a dar contexto, mas também a pessoalizar a narrativa.
E é isso que torna Videogames Crash uma narrativa híbrida, pois é ao mesmo tempo uma coletânea de reportagens objetivas sobre a trajetória de promulgação de uma lei pioneira do setor dos videogames, e um pouco da história pessoal de alguém que batalha por uma indústria brasileira de jogos mais forte desde 2010, quando escreveu o livro Geração Gamer como TCC do curso de jornalismo.
Apesar das mais de 150 páginas, o livro é de leitura simples e rápida. A escrita de Zambarda é a quintessência do manual do jornalismo: simples, direta, técnica e objetiva. Aqui não há floreios, rebuscamentos ou metáforas. A informação é prato principal, entrada e sobremesa; o “estilo” é garantir que ela será transmitida da forma mais clara e direta possível.
Sinceridade? É um estilo de escrita que eu não gosto muito. E isso não é uma crítica, é apenas eu sendo transparente sobre meu gosto pessoal. No geral, eu tenho problemas pra ler qualquer texto que é muito “manual de jornalismo”. Eu fico entediado muito rápido, e textos que seguem à risca todas as regras de “boa redação jornalística” costumam me dar sono. Mas eu entendo o porquê essa foi a escolha de estilo para o livro.
Porque é justamente esse estilo que torna o livro tão fácil de digerir mesmo por quem não manja nada do assunto ou não tem a leitura como um prazer estético. Se você é um “crackudo de notícias” e se interessa mais pelo conteúdo em si do que pela forma que ele é passado, Videogame Crash é um prato cheio.
E prato cheio, neste caso, de arroz, feijão e ovo. Ele vai te alimentar bem e garantir todos os nutrientes que você precisa. Mas, se tiver um paladar mais exigente (ou infantil), provavelmente não vai satisfazer todas as suas necessidades estéticas, porque não tem nem um coentrozinho picado em cima do ovo pra dar ums cor. É pura substância sobre estética.
Talvez a única crítica real que possa ser feito aqui é que em alguns momentos o livro é pessoal demais, no sentido de não se aprofundar em algumas histórias que com certeza possuem mais detalhes.
Um dos exemplos mais claros é no telefonema que o autor deu no último dia possível para a assinatura do Marco Legal como lei, e que terminou com o presidente Lula assinando o projeto no fim da tarde. Pedro conta como ajudou a “derrubar os dominós” que culminaram na esperada assinatura do presidente, mas não há uma tentativa de ir atrás de detalhes dessa história, de com quem o contato dele falou que acabou passando a urgência do projeto para Lula.
Claro, não podemos culpar uma narrativa por não fazer aquilo que ela não se propôs. Afinal, desde o começo esse é um livro centrado na perspectiva de Zambarda e no papel dele em toda a história. Mas isso não impede que a gente não fique com um gostinho de “hmm, queria saber um pouco mais sobre essa parte aqui” em alguns momentos.
Videogames Crash e o papel do Brasil no futuro dos games
Como foi amplamente discutido durante a live de lançamento do livro no domingo (13), o Marco Legal dos Games é a pedra fundadora que o Brasil precisava para começar a estruturar de verdade uma indústria por aqui. E falamos aqui de uma indústria nacional real, não de alguns poucos estúdios que “dão certo” com ajuda de capital estrangeiro.
Mas eu diria que a grande importância para o futuro que é mostrado no livro está na briga contra a tentativa de tornar o Marco Legal uma legislação “cavalo de Tróia” para a isenção fiscal de sites de apostas.
Esse talvez seja o ponto mais importante que o livro ajuda a divulgar: nós estivemos muito, mas muito perto de ter um Marco Legal que excluía completamente os videogames. E isso aconteceu pelo lobby fortíssimo das chamadas “bets” (as empresas de apostas esportivas), que usou o nome de fantasy games para tentar capturar e tomar para si o projeto. E, se conseguissem, isso teria um impacto muito negativo para o Brasil: não só tornaria mais difícil passar uma nova legislação séria para videogames (porque, afinal, já existiria um “marco” sobre isso), como criaria uma “desculpa legal” para que as bets operassem no Brasil sem pagar impostos.
Esta foi uma verdadeira briga de Davi versus Golias: de um lado estavam os bilhões de dólares das apostas, e do outro associações regionais de videogame e membros da indústria que ralavam para pagar as contas. E, contra todas as expectativas, as casas de aposta perderam essa batalha.
Eu acredito que esta vitória possa ser um exemplo a ser visto por outros países. Porque ainda que aposta não é jogo, muitos jogos estão cheios de mecânicas de apostas neles – desde aqueles gratuitos para o celular até games AAA que custam quase R$500. Há uma briga ocorrendo há anos para tentar regular mecânicas como loot boxes, gachas e outras comuns na monetização de diversos jogos, e todas elas esbarram em um enorme lobby contrário pelo dinheiro que elas geram às grandes desenvolvedoras e publicadoras.
Então, mais do que um marco fundamental da indústria brasileira, o Brasil pode ser um exemplo de que é possível ganhar esta batalha contra os bilhões gerados pela indústria de apostas e as mecânicas de jogo que imitam apostas.
Videogame Crash pode não ser necessariamente um livro de cabeceira para muitas pessoas – eu, por exemplo, ocupo esse espaço com obras de Balzac, Victor Hugo, ou qualquer outro autor cuja prosa me dá sono e me ajuda nas noites de insônia. Mas é um livro essencial para pessoas que tenham qualquer interesse pela indústria de videogames. Principalmente por não exigir qualquer tipo de conhecimento prévio para entender a importância dos eventos narrados.
Videogame Crash:do Marco Legal dos Games às demissões em massa está disponível na Amazon (em versões física e digital) e em qualquer livraria nacional.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.
