The Pitt: a doença mais cruel é achar que o trabalho é nossa vida - Drops de Jogos

The Pitt: a doença mais cruel é achar que o trabalho é nossa vida

(Imagem: divulgação/HBO)

[Atenção: este texto tem spoilers sobre o episódio 14 da segunda temporada de The Pitt]

Esta semana teremos o último episódio da segunda temporada de The Pitt. Eu já escrevi aqui sobre como esta série é uma das minhas preferidas e o porquê ela é a primeira série médica de verdade da TV. Mas o penúltimo episódio desta temporada fala de algo que me pegou no âmago (e provavelmente também fez muitas outras pessoas se sentirem vistas).

Em uma conversa entre o Dr. Robbie e o mecânico de motos dele (que estava no hospital para fazer uma série de exames), o médico fala que estava pensando em sair dali “para nunca mais voltar” (dito com um tom que implicava não necessariamente pedir as contas, mas cometer suicídio), ao qual o mecânico responde que entende, que ele não aguentaria ficar naquela rotina de atendimento de emergências nem 12 minutos, quanto mais 12h por dia durante 20 anos igual à Robbie. E para a surpresa de muitos, Robbie responde que ali – o hospital – não era o problema. Ali ele se sentia necessário, sentia que tinha propósito, que ele servia para algo ali. O problema era lá fora – ou seja, a vida fora do hospital. Era fora do papel dele como médico que ele sentia que estava desperdiçando sua vida, que não tinha construído nada e que nada mais fazia sentido.

Claro, logo após o episódio as redes sociais e comunidades da série foram inundadas por estatísticas de casos de depressão e suicídio entre médicos e outros agentes de saúde, mas eu fiquei pensando como isso era uma interpretação rasa daquele sentimento. Porque este não é um sentimento apenas de um médico – é um sentimento de qualquer pessoa que vive no capitalismo e percebe que o sistema a quebrou como pessoa.

Eu não sou médico, mas consigo entender perfeitamente aquilo que o Dr. Robbie descreve em The Pitt. Já tive esse mesmo tipo de pensamento: de que, fora do trabalho, nada faz sentido. De sentir que não construi absolutamente nada – e mergulhando em uma espiral de negatividade por causa disso – enquanto vivia numa casa com a esposa que está do meu lado há mais de dez anos, rodeado de pessoas que torciam pela minha felicidade mas que eu simplesmente não conseguia enxergar.

Este foco no trabalho é uma das faces mais cruéis do sistema em que vivemos. Desde cedo, somos ensinados que a vida é o trabalho: devemos estudar não porque o conhecimento é algo interessante de se obter, mas para conseguir bons empregos; somos levados a escolher um curso técnico ou faculdade não com o conceito de se aperfeiçoar em alguma habilidade que já possuímos, mas baseados em qual profissão paga melhor. Até mesmo quando vamos nos apresentar, a primeira coisa que falamos após nossos nomes é nossa profissão.

E este foco no trabalho até tinha um sentido algumas décadas atrás, quando você se concentrar no trabalho era sinônimo de crescimento. Não importava muito o emprego; se dedique e fique bom nele que você conseguirá comprar uma casa e sustentar uma família. As dificuldades variam em cada situação, claro, mas o objetivo uma hora ou outra era alcançado.

Esse vazio existencial em relação ao trabalho é algo muito mais recente, e que tem ligação direta com a precarização cada vez maior do trabalho em geral. Cada vez mais as pessoas trabalham apenas para sobreviver, vivendo de salário em salário sem conseguir criar poupanças ou fazer planos de longo prazo porque necessitam equilibrar as contas e as dívidas a cada mês. E não falo dívidas de jogo ou de gastar o salário com “bebidas e prostitutas”, mas de um conserto de carro, uma ida ao veterinário, uma compra no mercado e todas essas outras necessidades e imprevistos que acabam pesando no cartão de crédito ou exigindo que se acumule empréstimos.

E aí quando você recebe uma criação de que a sua emancipação está no trabalho, e por mais que você trabalhe você não consegue essa emancipação, a balança não fecha. E aí você faz aquilo que aprendeu: se dedicar ainda mais ao trabalho em detrimento da vida fora dele. E aí, ao invés de nutrir a pessoa que somos e prestar atenção nas necessidades dela, focamos tanto em atender as demandas do sistema que, uma hora ou outra, não conseguimos mais nos reconhecer como pessoas que merecem dignidades e afeto em qualquer lugar fora do nosso trabalho.

É justamente neste momento que o Dr. Robbie está – um momento que tem tudo a ver com a atual temporada de The Pitt. Em diversas entrevistas, os criadores da série (incluindo Noah Wyle, que interpreta o próprio Dr. Robbie) já afirmaram que esta segunda temporada seria focado em mostrar os personagens não como heróis, mas como pessoas que foram quebradas pelo sistema. No caso, o “sistema” seria a máquina de moer pessoas que o sistema de saúde dos EUA em todos os seus níveis, mas essa mesma mensagem pode ser facilmente extrapolada para a máquina de moer ossos que é viver sob o atual momento do capitalismo, onde todos os sacrifícios devem ser feitos para que a meia dúzia das pessoas mais ricas do mundo fiquem ainda mais ricas.

Eu tenho certeza que muitas pessoas se sentiram com o coração na boca após ver essa cena. Eu falo por mim: ela pega tão pesado num sentimento que me foi muito real por tanto tempo que eu não consigo não sentir meus olhos enchendo de lágrimas toda vez que a revejo. E eu acredito que ela também deve bater pesado em muita gente – mesmo quem só pesque ela perdida nas redes sociais e não acompanha a série.

Porque esta talvez seja a doença mais cruel: a sensação de que só temos valor como seres humanos quando estamos trabalhando. E esta é uma condição cruel não apenas pelos sinais e sintomas que ela nos causa, mas por ser uma doença onde há um enorme esforço psicossocial (e investimento financeiro) não apenas para que as causas dela nunca sejam curadas, mas também para que as pessoas que a possuem nunca seja diagnosticadas ou tomem consciência de que aquilo que sentem não deveria ser normal.

*The Pitt está disponível no catálogo da HBO Max.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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Pedro

Nó, essa cena me arrebentou, tive que levantar da sala onde eu tava assistindo e ir chorar na cozinha