Bancos e Fintechs no centro do combate às bets ilegais no Brasil - Drops de Jogos

Bancos e Fintechs no centro do combate às bets ilegais no Brasil

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  • por em 11 de junho de 2026

Só até abril de 2026, mais de 39 mil sites já tinham sido bloqueados no Brasil por não cumprirem com os critérios impostos para operarem legalmente. E engana-se quem pensa que o Governo estaria para abrandar com a fiscalização. Muito pelo contrário. O governo continua a voltar atenções para um problema que cresce, mesmo com os bloqueios.

A resposta legislativa chegou em maio de 2026, quando a Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 4.044/2025, que institui o Marco Legal de Combate ao Mercado Ilegal de Jogos e Apostas. O texto ainda segue para votação, mas o seu avanço em comissão sinaliza uma mudança de abordagem: o cerco às bets clandestinas passa agora pelo sistema financeiro.

O que muda com o marco legal

O projeto aprovado em comissão prevê que bancos, fintechs e processadoras de pagamento passem a monitorar ativamente transações com características típicas de apostas realizadas por operadores sem autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA). Na prática, isso significa que as instituições financeiras serão obrigadas a verificar a situação regulatória dos destinatários de determinados fluxos financeiros e a bloquear contas ou transferências associadas a empresas que operem fora da lei.

Bernardo Cavalcanti Freire, consultor jurídico da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), considera a medida essencial: o controlo pelos meios financeiros é, segundo ele, a forma mais eficiente de apertar o cerco às operações clandestinas, e a partilha de informações sobre fraudes identificadas entre instituições é um passo fundamental nesse processo.

A lógica é simples. Bloquear um site é relativamente fácil… e contornável. Cortar o acesso financeiro é muito mais difícil de contornar.

Por que o sistema financeiro é o próximo passo

Desde a aprovação da Lei nº 14.790/2023, o governo implementou um conjunto alargado de medidas: bloqueio de domínios em parceria com a Anatel, criação da SPA, exigência de licença federal, implementação de reconhecimento facial, fiscalização de publicidade irregular e reforço dos mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro.

Mesmo assim, plataformas sem licença continuaram a operar. Parte delas simplesmente mudou de domínio ou passou a utilizar intermediários financeiros para processar depósitos e saques, muitas vezes através de contas de terceiros ou de fintechs com menor capacidade de rastreamento.

Para quem aposta online, a diferença entre usar plataformas legalizadas pelo governo e uma operadora ilegal vai muito além da legalidade formal. As plataformas regulamentadas são obrigadas a manter reservas financeiras dedicadas ao pagamento de prémios, a participar do Consumidor.gov e a cumprir normas de proteção ao utilizador que simplesmente não existem no mercado clandestino.

O impacto no apostador

O avanço do Marco Legal interessa diretamente a quem aposta. Cristiano Costa, diretor de conhecimento da EBAC (Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo), sublinha que quando o mercado regulado ocupa o seu espaço e as operações clandestinas perdem força, os utilizadores passam a ter mais acesso a ambientes com mecanismos de proteção psicológica e suporte especializado; algo que as plataformas ilegais simplesmente não oferecem.

Os dados do Banco Central reforçam a urgência do tema. O Estudo Especial nº 119/2024 (BCB, setembro de 2024) estimou que cerca de 24 milhões de pessoas realizaram apostas via Pix ao longo de 2024, com transferências mensais a variar entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões. Um mercado desse volume, com uma fatia ainda significativa a operar fora das regras, representa riscos concretos para os utilizadores mais vulneráveis.

O que já existe e o que ainda falta

O sistema de licenciamento brasileiro é, hoje, um dos mais estruturados da América Latina. Para obter a licença SIGAP, as operadoras tiveram de pagar uma taxa de R$ 30 milhões, demonstrar sede física no Brasil, comprovar a justiça dos resultados dos jogos e migrar para o domínio .bet.br a partir de janeiro de 2025.

Hans Schleier, COO da Casa de Apostas, resume bem o impacto esperado: medidas que dificultam a atuação de empresas não autorizadas contribuem para fortalecer o mercado regulado, aumentar a segurança dos utilizadores e criar condições de concorrência mais equilibradas para quem cumpre as regras.

O Marco Legal aprovado em comissão acrescenta uma camada adicional a esse esforço e fecha uma das principais brechas que permaneciam abertas após os bloqueios de domínios.

O que deve vir a seguir

O debate no Congresso sobre apostas não se esgota no Marco Legal. Em paralelo, estão em discussão temas como regulação da publicidade, proteção reforçada ao consumidor, prevenção ao jogo problemático e responsabilização civil de operadores ilegais.

A tendência é de aperto progressivo. À medida que o sistema financeiro se integra no esforço de fiscalização, ficará cada vez mais difícil para operadores clandestinos manter fluxos de pagamento funcionais; o que deve acelerar a migração dos apostadores para o mercado regulado.

Para quem já aposta, ou está a considerar começar, o cenário atual é claro: a distinção entre plataformas legais e ilegais nunca foi tão visível, e as consequências de ignorá-la nunca foram tão concretas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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