Por Pedro Zambarda, editor-chefe do Drops de Jogos, com gameplay de Ana Lesnovski, cofundadora do Meteoro Brasil. CONTÉM TODOS OS SPOILERS DE HISTÓRIA E MUITA COISA DA GAMEPLAY.
Death Stranding 2: On The Beach chegou ao mercado em 26 de junho de 2025 exclusivo para PlayStation 5. Fizemos um review preliminar, porque recebemos uma cópia de teste da Sony, e estamos na espectativa da adaptação para PC/Steam, que chega no dia 19 de março de 2026.
O lançamento foi sucedido por uma turnê mundial do fundador da Kojima Productions e um dos maiores nomes da Konami, Hideo Kojima, o desenvolvedor do universo dos videogames mais influente nas redes sociais. Chegamos a participar de uma entrevista coletiva com o próprio na Brasil Game Show 2025, a BGS.
Neste review, vamos tentar revisitar todo o segundo jogo – estabelecendo links com o primeiro título de 2019 e o que existe de fato de singular em On The Beach.


A série de games sobre o fim do mundo ganha novas camadas
Kojima fez um jogo em 2019, sobre o fim do mundo. Primeiro baseado no Japão mais contemporâneo, mantendo o estilo e a assinatura que o fizeram mundialmente famoso na franquia Metal Gear Solid – e não deixando de lado Snatcher, Policenauts, Zone of Enders e referências mais nipônicas que não são tão conhecidas nos Estados Unidos. Na coletiva para a imprensa brasileira, e em outros lugares do mundo, ele deixou claro que não previa a pandemia da Covid-19 e nem o fato de que ficaríamos trancados em casa. Seu primeiro Death Stranding era um jogo, sobretudo, sobre redes sociais e sobre o andar. Sendo um título de exploração, ele abandonava as armas para te apresentar um mundo que mistura vivos e mortos.
No primeiro game, você controla Sam Porter Bridges, um entregador de encomendas no mundo acometido pelo Death Stranding, que trabalha para Bridget Strand, a presidenta da América, os Estados Unidos desse universo ficcional. Recorrendo à literatura de Kobo Abe, Kojima aponta que há duas formas de percorrer a jornada de Sam: “através de paus ou cordas”. Os paus são as armas, inclusive que podem provocar o fim do mundo (um Death Stranding final, uma extinção de espécie), e as cordas são os laços humanos e uma rede quiral que precisa ser reconectada para salvar toda a humanidade.
Na jornada, você utiliza muito mais no primeiro game as cordas, recorrendo às armas (paus) para os combates, sobretudo contra chefes, surgidos dessa explosão chamada Death Stranding, que une vivos e mortos. Sam descobre na trama que Bridget supostamente tem uma filha, chamada Amélie, que está na “praia” do outro lado do continente de uma América desconectada e prestes a ser exterminada. As praias são espaços construídos nesse cenário de apocalipse onde as almas se concentram. Os seres humanos então criaram rastreadores biológicos, os BBs, para evitar novas explosões. Sam, como entregador da Bridges, ganha o seu próprio BB.

Ao descobrir mais sobre a história verdadeira do Death Stranding, Sam se depara com a verdade paradoxal que Amélie não é filha de Bridget, que faleceu de câncer, e sim sua alma na praia. E Amélie se separou do seu corpo porque Bridget Strand, sendo a personalidade política que criou o experimento dos BBs, tornou-se uma entidade de destruição final e o mecanismo para eliminar a humanidade com a sua ajuda – criando uma rede de conexões. Amélie é protegida por Higgs, um terrorista que traiu a entregadora e empresária Fragile, para provocar o caos no mundo.

Sam Porter Bridges é um repatriado e foi o primeiro recém-nascido escolhido por Bridget para se tornar um BB. Mas seu pai, Clifford Unger, discordou da líder da América e tentou tirar o filho do laboratório. Na fuga, ele faleceu, e foi sugado pela praia para um sofrimento eterno, e Sam foi mortalmente ferido. Bridget, através de Amélie, transformou Sam em um imortal. Nosso protagonista é incapaz de morrer, não tem mais cordão umbilical e viverá todos os sofrimentos desse mundo.
Por essa razão, Death Stranding é um jogo bem pouco punitivo, embora ele não seja um game necessariamente fácil. E o mais complicado é entender toda a história que rondam os personagens, englobando um mundo tomado por empresas privadas, isolamento, ficção científica e tragédia.
Por ser repatriado, Sam derrota e humilha Higgs. Sendo uma criação de Amélie, ela dá duas opções para o seu protagonista: Destruir a raça humana e cumprir o propósito do Death Stranding ou permitir que as pessoas vivam mais antes do apocalipse definitivo.
Sam decide viver.
E o segundo game dá novas camadas para esse universo belíssimo de fim do mundo.
O primeiro game é sobre maternidade; o segundo, paternidade

Embora o Death Stranding de 2019 não aborde o tema “mãe” propriamente dito – Amélie/Bridget não é a mãe biológica de Sam e, pelo contrário, o jogou num universo de desgraça eterna -, a mãe do protagonista aparece sendo assassinada por Clifford quando ele tenta salvar o próprio filho no laboratório – tema que inclusive veio de P.T., provavelmente o maior thriller de horror que Hideo Kojima desenvolveu e que poderia ter sido um episódio da franquia Silent Hill. Esse jogo de quase sete anos atrás também não se conecta diretamente com a pandemia da Covid-19, mas muitos dos seus elementos contam a história do presente que vivemos e sentimos na pele, em pleno isolamento.
Death Stranding 2, de 2025, permite ser mais explícito. A separação entre paus e cordas é menos explícita. E aqui, nas falas do vilão Higgs que voltou do mundo dos mortos através de uma seita, você não é mais o herói pacifista que quer unificar o mundo. Sam conectou a América, é convidado por Fragile para conectar o México e depois, através de um portal tunelar, para conectar a Austrália. São tantos universos diferentes que o desejo de ajudar as pessoas é substituido por uma tentativa de sobreviver diante de grupos terroristas espalhados pelo mundo.
E Higgs, que não perdoa Sam por não ter causado o Death Stranding definitivo através de Amélie, o que era seu desejo, decide voltar para se vingar. E supostamente elimina Lou, a BB que guiou Sam Porter Bridges no primeiro game e que ele adotou como sua filha fora das capsulas de laboratório.

O ataque de Higgs virtualmente mata Sam em vida, porque ele é imortal, com ele perdendo a motivação de ajudar as pessoas ao seu redor ou as organizações tecnológicas que ele ajudou a construir, hoje tomadas pela inteligência artificial, a IA. Nessa quase-morte, ele é resgatado por Fragile, que reúne uma força-tarefa na nave DHV Magalhães, que busca dar um novo sentido de humanidade diante de tantas ameaças.

Na jornada, assim como Sam encarou lutas contra um fantasma chamado Cliff, baseado em seu pai Clifford, ele contra uma entidade chamada Neil Vana em combates que o transferem da Austrália de volta ao México. Nos flashbacks e nas lutas, Sam Porter Bridges é enfim exposto à realidade: Neil era amante de sua esposa, chamada Lucy, e ela estava grávida de sua filha, Louise. Registros escondidos da Bridges, empresa de Bridget, apontaram que o BB dado para Sam desde o começo era Lou, a sua Lou, o bebê que foi arrancado de Lucy e Neil, assassinados pelo governo.
E pior: Lou não foi assassinada por Higgs. O terrorista tentou, mas quem a teletransportou do ataque foi Fragile. Na mudança de espaço e tempo, Louise ganhou sinergia alcatrão que une vivos e mortos no Death Stranding, tornando-se a entidade conhecida como Tomorrow.
Tomorrow e Fragile, as verdadeiras heroínas da história

Higgs era, no primeiro jogo, algo como um vocalista de bandas de death metal, com uma máscara de caveira. No segundo, com cabelos longos e inspirados em Amélie, ele parece uma mistura do guitarrista virtuose Steve Vai, com algum integrante da banda Kiss ou qualquer estrela do hard rock americano de 1980 a sua escolha. Nesse visual roqueiro, ele vai para um embate de guitarras elétricas (acredite se quiser) contra o protagonista Sam. É uma lutinha com muita energia masculina heterossexual.

No entanto, mesmo com você derrotando o avatar do caos que é Higgs, quem o devora é uma versão bebê gigante de Tomorrow. E quem salvou Tomorrow de Higgs, quando ela ainda era uma criança, foi Fragile. E a revelação final do jogo é que de fato a personagem interpretada pela estrela francesa Léa Seydoux foi morta. No entanto, sua energia vital e seu amor por Sam Porter Bridges a deixaram viva para que você encerrasse a jornada.
Sam salva o mundo e Tomorrow, que mergulhou no alcatrão e viajou na frente do tempo, é uma jovem adulta que se tornara a futura porter, a futura entregadora. De um mundo muito mais conectado e que ainda vive a ameaça de um Death Stranding.
O que Kojima aprendeu no caminho
Em 17 de janeiro de 2022, publiquei que o desenvolvedor Hideo Kojima, embora tenha modernizado a indústria dos videogames, ainda construía narrativas machistas, com personagens femininas que não tinham real destaque. Uma exceção talvez fosse The Boss, personagem de Metal Gear Solid 3 Snake Eater, de 2004. Mergulhada num jogo, no entanto, ainda imerso em sexualização talvez desnecessária.
Death Stranding 2 parece ter levado o desenvolvedor de jogos a fazer uma necessária autocrítica. Em podcasts durante o desenvolvimento do game, Kojima explicou que a escolha da jovem atriz Elle Fanning foi crucial para contar a história de Louise como foi representada no enredo como um todo. Se a contratação de Norman Reedus como Sam os tornou amigos pessoais – Kojima contou essa história no Brasil -, ele decidiu no seu mais recente game dar o devido destaque para mulheres.
E isso é fruto da escuta que ele tem com a comunidade de Metal Gear e de Death Stranding pelo mundo, tirando algumas centenas de fotos com fãs, cosplayers e todo tipo de admirador.
Sem medo de falar em Metal Gear
Nas coletivas ao redor do mundo, a assessoria da Kojima Productions em geral pedia para que a imprensa não perguntasse tanto sobre sua obra anterior, que revolucionou a indústria desde o primeiro game de 1987, criado nas limitações do computador MSX. No entanto, na conversa, naturalmente o papo de Kojima evoluía para comentar sobre Metal Gear Solid, o game que popularizou o uso de atores e de linguagem cinematrográfica na indústria.
Death Stranding 2 também se livrou dessas amarras. Se o primeiro Death Stranding é um anti-Metal Gear, pregando pacifismo, o segundo abusa de violência e de conflitos. E os paradoxos dessas obras ajudam a mostrar como Hideo Kojima é um autor multifacetado.
Sinto que tem muito mais coisa a ser comentada sobre a obra, mas isso resume aspectos de argumentação teórica, construção de mundo, gameplay, enredo e as principais questões tratadas.
Tem política nos videogames?
Entre tantos personagens incônicos, uma coadjuvante marca DS2: Rainy. No universo infestado de alcatrão que conecta vivos e mortos, ela invoca uma chuva que salva o meio ambiente e que consegue curar personagens de efermidades. E Rainy é uma mulher grávida.
Numa história repleta de morte, extinção e uso científico instrumental de bebês, a criança de Rainy reflete um novo alvorecer, uma perspectiva de esperança diante do apocalipse.
Kojima deixou claro em coletiva no Brasil que a questão ambiental, tanto quanto a militar e a tecnológica, o preocupa e é o centro da análise política que ele traz em seus games. E desde o primeiro minuto, a franquia Death Stranding lida com símbolos de vida e de morte, com animais maritmos contaminados, aflitos ou mesmo mortos.

Hideo Kojima no Brasil. Foto: Pedro Zambarda/Drops de Jogos
É comum uma cena de batalha diante de túmulos e da praia com inúmeras baleias mortas. Não simples peixes e sim baleias.
Saldo final

Death Stranding é a franquia que, para mim, lida com os males dos tempos recentíssimos. Período da pandemia está escancarado indiretamente no jogo 1 e diretamente no jogo 2. Death Stranding 2 parece obra de um ator que, depois da autocrítica, entrega uma história, uma gameplay e uma ambientação de autoaceitação.
Kojima continua no plágio de si mesmo, mas entrega novidades que tiram os fãs do espaço de conforto. Death Stranding 1 é meio Minecraft, totalmente aberto e vago. Death Stranding 2 é Mad Max. É o fim do mundo com adrenalina.
PS: Não gostei de algumas mudanças de comando no gameplay. Por isso tirei alguns pontos do primeiro review. Mas é tudo muito redondo. Videogame de ponta.
Notas
- Gráficos: 10
- Jogabilidade: 9,5
- Som: 10
- Replay: 10
- Nota final: 9,87
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.
