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O que há não muito tempo ainda soava como trama de ficção científica, hoje é uma realidade: a possibilidade de alguém se tornar um turista espacial.
Desde que as primeiras viagens turísticas ao ambiente espacial começaram a acontecer na prática, em 2021, o número de voos suborbitais com passageiros pagantes não para de crescer. Com isso, uma polêmica antiga permanece no ar: afinal, turistas espaciais podem ser chamados de astronautas?
Em um cenário em que bilionários e celebridades compram passagens para passar alguns minutos no espaço, basta vivenciar tal breve experiência para garantir seu próprio título de astronauta? Ou ainda é necessário preservar uma distinção ética, técnica e simbólica, que valorize a verdadeira profissão de um astronauta de carreira?
A resposta definitiva, ainda não temos. Mas respeitados profissionais do setor — e também a própria NASA — argumentam que é preciso, sim, manter essa distinção. E por que isso importa? É o que abordamos nas linhas abaixo. Mas, antes, vamos explicar exatamente o que é um astronauta, o que é um turista espacial, como funcionam os voos comerciais ao espaço e os danos gerados pela ‘confusão’ entre os termos.
Tradicionalmente, astronauta é um profissional altamente qualificado para participar de missões espaciais — seja em órbita terrestre, em viagens à Lua ou, futuramente, em missões ainda mais distantes —, que passou por um rigoroso processo seletivo e então por anos de preparação técnica, científica, física e psicológica para, somente depois disso, estar apto a viajar ao espaço, cumprindo seu papel em uma missão espacial oficial.
O termo “astronauta” carrega muitas décadas de história, significado e propósito. Desde a Corrida Espacial intensificada nos anos 1960, “ser astronauta” significa ser parte de um seleto grupo de pessoas com formação técnica específica e papel ativo na exploração espacial. Nos últimos anos, vimos surgir a alcunha de “astronauta comercial”, que se difere de um “astronauta de carreira”. E, por fim, veio o “turista espacial”.
Veja a diferença entre os três conceitos:
A NASA, por exemplo, evita usar o termo “astronauta” para quem participa de uma missão como acompanhante. Para este caso, termo oficial cunhado pela agência é “participante de voo espacial”, sendo esta uma forma de preservar a distinção entre quem cumpre profissionalmente um papel científico em uma missão, e quem está em um voo espacial apenas para fins recreativos, publicitários, comerciais, e por aí vai.
Para se tornar um astronauta de carreira, o caminho é longo e altamente competitivo. Agências espaciais podem ter alguns critérios diferentes entre si, mas o processo no fundo é basicamente o mesmo.
Eis alguns dos principais critérios exigidos pela NASA em seus processos seletivos de astronautas profissionais:
Os pré-aprovados então precisam passar por anos de treinamento intenso até se formarem no “cursinho preparatório” de um astronauta de verdade. Na NASA, este treinamento visa prepará-los para realizar tarefas como:
É uma jornada rigorosa, que prepara o profissional para atuar de fato na exploração espacial, com um papel técnico, científico e operacional, em uma missão oficial da agência espacial dos EUA.
O termo “turista espacial” se refere a civis que compram passagens para participar de voos espaciais comerciais — em sua maioria de curta duração e sem função técnica atribuída.
Por enquanto, os principais passeios turísticos no espaço, oferecidos por empresas privadas, acontecem em voos suborbitais. Nestes voos, a nave atinge altitudes próximas ou superiores a 80 km ou 100 km, chegando à chamada Linha de Kármán — nome dado à “linha” imaginária que define onde termina a área da atmosfera terrestre, e onde começa a área do espaço sideral. Alcançar essa “linha” dentro de uma cápsula espacial proporciona a experiência de flutuar em microgravidade, além da possibilidade de ver a Terra “do alto” — isto é, do espaço. Após alguns minutos, a nave inicia seu retorno à Terra, trazendo seus passageiros de volta ao solo.
Alguns famosos já entraram na lista de “pessoas que se tornaram turistas espaciais”. Os mais notórios até então são:
Por enquanto, as empresas privadas que realizam voos espaciais turísticos são:
O custo de um voo turístico espacial varia bastante de acordo com a empresa e o tipo de voo (suborbital ou orbital). Atualmente, os valores cobrados pelas três empresas mencionadas acima são os seguintes:
O peso simbólico da palavra “astronauta” é imenso. Ela representa décadas de avanço científico e tecnológico, de preparo humano extremo, de risco à vida e de contribuição à exploração espacial. Não por acaso, empresas privadas exploram intensamente o marketing de “torne-se um astronauta”. Afinal, esta é uma promessa irresistível para atrair clientes dispostos a pagar cifras milionárias para se sentirem um pouco como os astronautas de verdade. Mas há um problema real nisso aqui: a banalização do termo — e de tudo o que ele representa à sociedade.
A proliferação de voos suborbitais e a tendência de celebridades e turistas se autoproclamarem astronautas gera confusão. Manchetes chamando qualquer novo passageiro em um voo comercial de “primeiro astronauta do nosso país” ou apenas de “astronauta não profissional” acabam diluindo o valor do título. Com isso, para o público que não acompanha de perto o setor espacial, a distinção entre astronauta profissional e turista espacial desaparece. E, então, o respeito pelo trabalho e pelo preparo dos verdadeiros astronautas começa a “ir para o espaço”.
Entre muitos astronautas profissionais, há um consenso forte: o título deve ser preservado. Terry Virts, veterano da NASA e ex-comandante da Estação Espacial Internacional, já afirmou publicamente que “ser astronauta não é sobre comprar um bilhete; é sobre se comprometer com a missão, com o treinamento, com a ciência”.
Jonathan McDowell, astrofísico do Centro Harvard-Smithsonian de Astrofísica, tem o argumento de que, se a pressão comercial tornar inevitável o uso do termo “astronauta” para turistas, que se adote ao menos uma distinção clara, como “astronauta privado” ou “astronauta comercial”, para que o título de “profissional” não perca seu valor.
Com o avanço do turismo espacial, cresce o consenso de que novas categorias precisam ser formalizadas. Isso permitiria reconhecer as conquistas dos voos privados sem desrespeitar a história e a importância da profissão de astronauta.
Neste momento em que o turismo espacial avança rapidamente (ainda que reservado a uma elite financeira), é crucial preservar o significado do título de astronauta. Não se trata de elitismo: é uma questão de respeito pela história, pela ciência e pelo enorme esforço humano envolvido na exploração do espaço. Inclusive, pelos humanos que já perderam a vida enquanto atuavam como astronautas.
Chamar turista espacial de astronauta acaba sendo um desserviço ao público. Explico: quando se chama de astronauta qualquer pessoa que, por qualquer razão, passou uns minutinhos ali no limite da atmosfera da Terra com o ambiente espacial, o que realmente significa ‘ser’ astronauta deixa de existir. E essa banalização não é danosa apenas aos astronautas, de fato: ela arrisca tirar o brilho da profissão aos olhos de crianças e adolescentes que sonham em se tornar astronautas de carreira. E isso, consequentemente, acaba sendo danoso à humanidade como um todo.
Veja, no vídeo incorporado abaixo, a live Dropando a Real que nós do Drops fizemos com Pedro Pallotta, do canal especializado em astronáutica Space Orbit, para debater o “caso Laysa Peixoto” — brasileira de 22 anos que afirmou, em rede social, que teria sido selecionada para se tornar “astronauta de carreira” em 2029, por meio de uma empresa privada que sequer é operacional no momento.
O que se sucedeu a partir daí foi um “circo” midiático por parte da imprensa que, vergonhosamente, noticiou a afirmação da jovem como sendo um fato, quando não houve apuração alguma para comprovar nada daquilo. A verdade veio à tona graças a Pallotta, que, indignado com o desserviço da imprensa brasileira, decidiu fazer o básico: apurar. O resultado? Mais uma barrigada da mídia. Mais uma disseminação em massa de desinformação. Mais uma vez, a população sendo bombardeada de mentiras fantasiadas de verdades.
Este é um exemplo claro de como a banalização do termo “astronauta” pode prejudicar a aceitação da ciência pela população geral, que já sofre além da conta com desinformação, fake news e teorias conspiratórias sobre ciência.
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