“Videogame tem potencial para ser expressão artística”, afirma designer brasileiro de jogos

  • por em 9 de abril de 2023

Game Arte e Cultura - Ilustração de Paulo Andrés

Texto de Paulo Andrés

Recentemente, Kao Tokio publicou um texto sobre game como cultura e arte, sendo esta a primeira parte de sua reflexão, aqui no Drops de Jogos.

Ele deu o pontapé inicial ao debate falando da dimensão da filosofia idealista sobre arte, e na oposição entre as ideias de Platão e Aristóteles, e que tiveram impacto em como o ocidente pensa a arte. Kao frisa bem no ponto de que esta questão, entre a arte ser “sombra” e simulacro imperfeito da vida para Platão, ou projeto e utopia para Aristóteles, está bem resolvida, e eu iria além em dizer que ninguém hoje pode sustentar a ideia de Platão a não ser como figura de linguagem, como metáfora para falar de outras coisas para além da arte, ou como anedota. Arte pode sim servir para imaginar o inimaginável ou impossível, nesses termos.

Gostaria então de contribuir ao debate falando como um artista desenvolvedor autoral de jogos que vem pensando e praticando algumas questões a partir da minha produção. Indo para além das discussões da filosofia idealista, que trata da dimensão da arte como algo transcendente ao mundo material, para mim (e muita gente, não inventei nada disso) a arte se define como tal nas relações sociais.

Penso que primeiro é importante entender que “o que é arte” é algo que muda no tempo e no espaço. Arte é definida culturalmente e está sujeita às relações sociais, inclusive aquelas relações de poder que existem em uma sociedade. O que é arte, hoje, depende de atores políticos que impõem sua vontade, muitas vezes, com fins econômicos de valorizar um produto para especulação ou venda, por exemplo, como faz o grande mercado dos leilões de obras de arte, ou mesmo no nosso tema poderia fazer (por que não?) a grande indústria de jogos para valorizar seu produto diante de algum nicho de público. Felizmente, não são apenas os barões econômicos que definem o que é arte.

Considero mais importante então a questão: pode o videogame ser compreendido como uma linguagem artística, estética? Lembrando, estética é o conhecimento que sintetiza forma e conteúdo juntos, e não apenas a parte visual, que assim seria apenas a “cosmética”. Eu acredito que sim (spoilers), o videogame tem potencial para ser utilizado como uma linguagem estética, uma que une interação com o jogador a imagens, animações, sons, em maior ou menor grau de cada um destes elementos. Não exatamente como o cinema, pois no videogame as imagens e sons estão condicionados e vinculados ao “game design” e “level design” (planejamento de níveis), ou seja: o limite para criar um gráfico ou som em um jogo é o de manter a inteligibilidade para o jogador de onde ele pode interagir ou colidir com o cenário e outros elementos. Ainda em outras palavras, quem cria jogos não tem a liberdade para mostrar qualquer imagem em qualquer momento ao jogador, sob pena de ele não poder compreender as regras do jogo. Imagem e som, no videogame, estão quase sempre subordinadas às suas regras: por exemplo, num jogo de plataformas tem de ficar claro o que é chão, o que é cenário de fundo, e o que são objetos para o jogador interagir, não importando que isso “quebre” o realismo da imagem.

Potencial para ser arte também não quer dizer que todo videogame seja necessariamente uma obra de arte. Mas antes de chegar nisto vale aqui atualizar quem não é da área de algumas coisas que mudam pelo menos a partir do romantismo, no século XIX: arte não é necessariamente o que é bonito, ela pode ser bonita ou feia para o seu critério pessoal, arte não é necessariamente o que é tecnicamente virtuoso, arte não é necessariamente o que é agradável e lhe passa “bons sentimentos”, ela pode sim ter a intenção de gerar repulsa, e arte definitivamente não é uma questão de gosto. Arte, num conceito mais contemporâneo, tem de levar a pessoa a parar e pensar. Arte tem de não apenas “informar”, por que de informação o mundo da internet está cheio, e essa informação toda não leva necessariamente a alguma reflexão. A arte hoje tem de, num mundo em constante aceleração, criar pausas, deslocar a pessoa do fluxo acelerado do tempo da máquina, para assim abrir espaço para a reflexão. Arte pode por exemplo colocar o sujeito diante de um espelho, fazer ele questionar seus preconceitos e incompreensões. Em outra época, em diferentes épocas, a arte necessitava realizar outras coisas para ser arte, mas hoje certamente ela precisa tensionar os problemas do nosso louco e anacrônico tempo.

Retomando e traçando paralelos com outras linguagens: nem todo filme é realmente considerado como obra de arte. Como o cinema, em especial o hollywoodiano, está muito vinculado a uma indústria do entretenimento, essas dimensões antagônicas podem por exemplo lutar entre si. De um lado, o entretenimento, que embebido das ideologias do marketing empresarial quer em geral “distrair” as pessoas, tirar elas do seu estado de consciência, anestesiar das mazelas sociais, ou ainda incutir ideias, ideologias, vender produtos, apelando para isso aos instintos mais primários e emotivos das pessoas. Distrair e alimentar diretamente o inconsciente de maneira semiótica, na maioria das vezes acelerando o tempo e não deixando espaço para o pensar. De outro lado a dimensão da arte, para mim (e muito mais gente) um potencial inegável do cinema, essa linguagem que mesmo quando é autoral é quase sempre coletiva, precisa fazer o oposto do entretenimento: no lugar de acelerar a passagem do tempo e distrair precisa “frear” o tempo e ativar o consciente, fazer refletir sobre seus temas, ou ainda trazer o inconsciente à superfície do consciente para que o sujeito possa adquirir algum conhecimento de si e/ou do mundo. Ninguém vai dizer que um filme dos Vingadores é arte, a não ser que alargue tanto o conceito de arte onde todo o entretenimento caiba nele. Alguém pode dizer, mas sinceramente, vai estar se iludindo e iludindo os outros.

Aqui, o videogame tem um grande problema: até mais do que o cinema, o videogame se impôs no mundo dominado pela indústria, vendido como puro entretenimento. Se não 100%, mas quase sempre totalmente focado em servir como pura distração para crianças ou, em especial hoje, uma miríade de adultos infantilizados. Você poderia ter no passado, e certamente tem hoje, autores independentes, marginais ao grande mercado (como eu e uns aí que eu conheço, dentre eles o Pedro Paiva, do “estúdio menosplaystation”) fazendo jogos sem focar apenas em produzir distração para as massas, mas certamente numa escala muito menor proporcionalmente ao que sempre teve o cinema, os quadrinhos, e mais ainda a literatura, por exemplo. Todas estas linguagens artísticas mais antigas tiveram e têm uma grande cena independente, underground, de produtores autorais e experimentais que tentam levar a linguagem ao limite e não estão preocupados com “tendências de mercado”. O videogame então entra nesse debate em desvantagem em relação a outras linguagens estéticas.

Apesar disso eu acredito, e trabalho nessa direção a cada novo jogo que crio, que o videogame pode sim ser utilizado como expressão artística. Nem todo filme é arte, mas alguns (inclusive alguns hollywoodianos para retomar o exemplo) são aclamados como tal, por que se apresentam como pelo menos algo além de entretenimento. Nem todo livro é considerado arte, tem muito best seller de ghostwriter aí que flerta tanto com o entretenimento que é realmente questionável o quanto de arte ele se propõe a ser. Se o produto estético não lhe faz pensar, e tem sentido contrário, pode ser que ele seja pouca coisa arte, ou uma arte que entra num conceito esvaziado de reflexão e utilizada apenas como entretenimento, “fast food”.

Também é importante lembrar que a intenção do autor precisa ser levada em conta, apesar de não ser o único fator. Sei bem que um trabalho estético sempre foge do controle de quem cria no momento que é apresentado às pessoas, pois aqueles que fruem o trabalho do artista vão interpretar a partir de suas noções de mundo e referências culturais. Ainda assim, sem a intenção do autor nem existiria o objeto de arte, e esta não pode ser desprezada. Entre alguém que quer apenas capturar a última moda, e fazer um jogo, ou filme, HQ, ou livro, que surfe na onda do momento e ganhe muito dinheiro, e um autor que pensa o seu videogame, filme, HQ, livro, etc., como um trabalho de arte (nem por isso fazendo votos de pobreza, querendo ganhar o justo por seu trabalho obviamente), é claro que esses últimos vão se aproximar bem mais do objetivo de criar algo identificado com arte.

Acho que o que falta no videogame é mais criadores que pensem nele como linguagem estética, como possibilidade de expressão artística, descobrindo o que dá ou não pra fazer com esta tão jovem linguagem. Eu tento ser um destes artistas que pensa o jogo dessa forma, mas como “uma andorinha não faz verão” não tenho a arrogância de acreditar que eu apenas conseguiria convencer ou provar meu ponto. Por isso, sigo fazendo meus jogos, por que é o que me é possível enquanto viver, refletindo e escrevendo/falando o que penso a partir desta experiência, e acreditando que isso também faça outras pessoas refletirem a respeito.

Amaweks [pseudônimo do autor] é Licenciado em Artes Visuais pela UDESC e desenvolvedor de jogos independentes há 9 anos, com títulos lançados para PC, Mega Drive, e ZX Spectrum em formato digital e edições físicas. Mais informações em www.amaweks.com.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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