Ubisoft + Tencent: subsidiária parece um plot twist de Sucession - Drops de Jogos

Ubisoft + Tencent: subsidiária parece um plot twist de Sucession

Movimento é visto como surpreendente pelo mercado, e pode atrapalhar os planos de uma venda da empresa

Imagem do personagem Logan Roy, da série Sucession, sentado com os logos da Tencent e da Ubisoft sobre os seus ombros

(Imagem: montagem por Rafael Silva/Drops de Jogos)

Nos últimos meses, a Ubisoft vinha sendo alvo das tendências mais monopolísticas do mercado de games. Muitos analistas apostavam na inevitável venda da empresa, e já existiam rumores de que a direção da empresa já tinha conversado sobre uma possível venda para a Microsoft e a EA.

Por isso, o movimento desta quinta (27) pegou tanta gente de surpresa: ao invés de vender a empresa, a Ubisoft criou uma nova subsidiária com a ajuda da Tencent. Essa subsidiária será a dona das marcas Assassin’s Creed, Far Cry e Tom Clancy, e está sendo criada com uma injeção financeira de US$1,25 bilhões da Tencent. Em retorno, a chinesa será dona de 25% da ações da nova subsidiária e terá poderes de voto e veto nos projetos da nova empresa.

Este investimento faz com que a nova subsidiária (que ainda não teve seu nome oficial revelado) tenha um valor de mercado total de US$4 bilhões. Esse valor demonstra como mesmo em “crise”, as principais marcas da empresa possuem um alto valor para o mercado de games.

Atualmente, a companhia chinesa possui 10% das ações da Ubisoft, enquanto a família Guillemot é dona de 20% da empresa. Não foi especificado o quanto da nova subsidiária ficará nas mãos dos Guillemot, que sempre foram a principal voz contrária em todas as conversas sobre venda da Ubi.

O NOSSO REVIEW DE ASSASSIN'S CREED SHADOWS

O que fará essa nova subsidiária da Ubisoft

De acordo com o documento oficial de anúncio da nova subsidiária, o objetivo dela será modernizar e tornar mais ágil o processo de decisão da Ubisoft, além de garantir maior foco na criação de experiências single-player, multiplayer e f2p (free-to-play) de alta qualidade e que entreguem aquilo que os fãs esperam.

A criação desta subsidiária ainda depende de uma audição fiscal feita por uma entidade financeira independente e a aprovação de toda a burocracia governamental de praxe, mas espera-se que tudo isso fique pronto e seja aprovado ainda este ano.

Assim que estiver oficialmente funcionando, a nova subsidiária será a responsável direta pela gerência de todos os projetos envolvendo as marcas Assassin’s Creed, Far Cry e Tom Clancy em qualquer uma das subsidiárias mundiais da Ubisoft.

A nova subsidiária também fica responsável por todo o catálogo dessas franquias lançado até o momento, e por todos os projetos que já estão em desenvolvimento pela empresa.

Vale apontar que esta nova subsidiária não irá controlar diversas marcas famosas da Ubisoft, incluindo nomes como Rabbids, Watch Dogs e Just Dance.

O que significa a criação dessa nova subsidiária

Primeiro, quero deixar aqui bem claro: eu não sou economista e nem especialista em fusões e aquisições. Eu sou malemá um jornalista que joga videogame nas horas vagas. Mas eu tenho dois neurônios que funcionam, e a análise que eles fizeram dessa história da subsidiária me remeteu diretamente aos melhores episódios de Sucession.

Existem dois tópicos específicos no documento de anúncio dessa subsidiária, que falam sobre a relação entre a Ubisoft e a nova empresa, que pra mim indicam qual é o real papel dessa nova divisão. Os tópicos são esses, em tradução feita por mim mesmo:

  • Farão parte desta subsidiária todos os times de Montréal, Quebec, Sherbrooke, Saguenay, Barcelona e Sofia que estão trabalhando, trabalham ou trabalharão no desenvolvimento de jogos das franquias Assassin’s Creed, Far Cry e Tom Clancy. Isso inclui todo o catálogo de jogos já lançados, games que estão em desenvolvimento e games que ainda serão desenvolvidos e que fazem parte dessas três franquias;
  • Com o pagamento de royalties, a nova subsidiária vai receber da Ubisoft todas as licenças de uso e qualquer outra similar referente ao uso de propriedade intelectual envolvendo as franquias Assassin’s Creed, Far Cry e Tom Clancy. Essas licenças serão de uso exclusivo, mundial, irrevogável e perpétuo.

Se você achou essas medidas um tanto estranhas, se liga nesse outro parágrafo que encontramos na seção sobre o acordo com a Tencent (também com tradução feita por mim):

  • “Call option” em benefício da Ubisoft e “put option” em benefício da Tencent no evento de mudanças sob quem controla a Ubisoft que seja aprovado pelo Corpo Diretor da empresa. O preço das ações no exercício desta cláusula será o maior entre (i) o valor de mercado das ações da subsidiária e (ii) o mesmo multiplicador EBIT utilizado em qualquer transação envolvendo uma mudança de controle na Ubisoft; no caso da “call option” para a Ubisoft, existe um valor mínimo específico por ação que precisará ser pago pela empresa se essa opção for exercida durante os primeiros 4 anos de contrato com a Tencent.

Quando colocamos esses três termos do contrato lado a lado, um possível entendimento é de que a criação dessa nova subsidiária é uma espécie de “golpe” nos atual corpo de diretores da empresa. E não falo “golpe” no sentido de algo ilegal, mas de aquele tipo de movimentação de mercado que ninguém esperava e que a gente via o Logan Roy (na real, todo mundo da família) tentando fazer nos episódios da série Sucession.

Deixa eu explicar melhor: o contrato de criação dessa subsidiária em parceria com a Tencent parecer criar todos os mecanismos legais para que, mesmo em uma possível venda da Ubisoft, a família Guillemot possa continuar como a responsável por controlar o destino das três principais “marcas” da empresa.

Essa interpretação fica ainda mais clara quando vemos que no documento sobre a criação dessa nova subsidiária (ainda sem nome) há a definição de que ela não será controlada pelos mesmos acionistas e diretores da Ubisoft, mas terá um novo corpo de diretores que irá supervisionar uma liderança dedicada às três principais franquias da empresa. E não só isso, mas este corpo de diretores também teria autonomia para decisões envolvendo desenvolvimento, marketing e distribuição dessas marcas. E eu poderia apostar que esses novos diretores terão relações diretas com a Tencent e com a família Guillemot.

Assim, mesmo que os acionistas e o corpo de diretores da Ubisoft consigam maioria e “force” os Guillemot a vender a empresa, a impressão é de que essa subsidiária cria todas as ferramentas para que, na prática, a família mantenha o controle sobre suas franquias de maior sucesso após a venda.

E isto seria uma espécie de “golpe” na hierarquia de poder da Ubisoft, pois não apenas reafirma a força dos Guillemot na condução do futuro da empresa (mesmo que esse futuro seja sob o guarda-chuva de uma companhia ainda maior), como também serve para diminuir as chances dos acionistas forçarem uma venda.

Afinal, se qualquer empresa que comprar a Ubisoft não terá o poder de decisão total sobre o futuro das franquias Assassin’s Creed, Far Cry e Tom Clancy’s, não só o preço de mercado da Ubi diminui drasticamente, como é possível que até as empresas que estavam interessadas na compra percam todo o interesse.

Este movimento de criação de uma subsidiária com investimento da Tencent é algo digno de um episódio de fim de temporada em Sucession: uma demonstração de soft power da família Guillemot para com os outros acionistas da empresa, e um dedo do meio em riste para qualquer um que achava que seria possível tirar a família fundadora de seu papel de definir o caminho que a empresa irá trilhar em direção ao seu futuro.

Mas, claro, isto só vale se o meu entendimento das entre-linhas e linhas finas de todo este movimento estiver correto. E se você é um especialista em fusões e aquisições, eu adoraria que você me explicasse como eu estou errado.

No fundo eu quero estar errado, de verdade. Porque se essa minha perspectiva estiver certa, a conclusão lógica de todo esse movimento vai ser uma só: mais layoffs e demissões em todos os estúdios da Ubisoft num futuro não tão distante.

Yves Guillemot, CEO da Ubisoft (Créditos: Divulgação/Ubisoft)

As tretas entre os Guillemot e a Ubisoft

Nos últimos anos, a confiança dos investidores e acionistas na condução da Ubisoft pelos Guillemot tem sido um tanto desafiadas – pra dizer o mínimo. E existem rumores de que ninguém na empresa estava muito feliz com a atual direção.

Do lado dos investidores, há uma preocupação de que os Guillemot são os principais responsáveis pela desvalorização que as ações da Ubisoft sofreram nos últimos anos. Essa desvalorização vem não apenas por alguns fracassos de mercado (como Star Wars Outlaws), mas também por uma percepção de que os Guillemot não tem feito nada para tentar mudar o caminho, investindo na mesma fórmula de anos ao invés de correr atrás das últimas tendências de mercado.

A situação chegou no nível que, alguns dias atrás, investidores anunciaram que fariam uma greve em frente à sede da Ubisoft caso a empresa não tomasse atitudes mais ousadas para mudar essa tendência de desvalorização nos próximos meses.

E as coisas também não estão boas na questão dos funcionários: desde que Yves Guillemot se embananou para resolver as denúncias de assédio sexual envolvendo alguns diretores da Ubi em 2020, a imagem da família não está nada boa com o pessoal que realmente faz o jogos.

Ainda que ele publicamente falasse que iria acompanhar de perto os casos e afastou todos os acusados, o CEO várias vezes se negou a assumir qualquer mínima responsabilidade sobre o fato. Mais de um vez, ele colocou toda a culpa em indivíduos que “traíram sua confiança”, quando há vários relatos de funcionários e ex-funcionários de que sempre existiram sinais de que havia algo errado, mas o CEO escolhia fazer vista grossa e só tomou uma atitude quando o caso foi a público.

Outro ponto que colocou Yves na “mira” de seus funcionários foi o esforço que ele sempre fez para fugir de questionamentos sobre um ambiente cultural “anti-mulheres protagonistas” que a Ubi teve por anos.

A mais pública dessas reclamações envolvia Serge Hascoët, ex-diretor criativo da empresa, que teria sido o responsável por proibir a série Assassin’s Creed de ter apenas protagonistas femininas. Um dos afastados no escândalo de assédio sexual, Hascoët junto com o time de marketing seria a voz que obrigou jogos como Assassin’s Creed Syndicate e Assassin’s Creed Odyssey a criar co-protagonistas do sexo masculino.

Esses personagens masculinos (Jacob e Alexios) não parecem encaixar bem na história no papel principal, e qualquer  um que joga esses jogos percebe que toda a narrativa do game foi criada em volta das personagens Evie e Kassandra como protagonistas. Mas o motivo delas não serem as únicas protagonistas do jogo seria que Hascoët e o marketing da Ubisoft acreditavam que jogos apenas com personagens principais femininas “não vendem”.

Considerando todo o panorama contrário à liderança de Yves, até semana passada parecia que o desfecho inevitável aconteceria com uma venda da Ubisoft para uma empresa ainda maior (rumores sugerem que Microsoft e EA já teriam aberto conversas sobre isso) e o afastamento de Guillemot do cargo do CEO.

Mas com a criação dessa subsidiária acontecendo justo num momento positivo para a Ubisoft, quando Assassin’s Creed Shadows é um sucesso de vendas e de crítica, o jogo virou. Yves Guillemot mostrou que, ao contrário do que muita gente acreditava, ele não é um “morto vivo” no cargo, mas alguém que levou a Ubisoft ao patamar atual por um motivo bem claro: o cara é um jogador. E ele ainda sabe como sair no topo – mesmo quando todo mundo já dava ele como carta fora do baralho.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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