Campanha do governo erra ao afirmar que games online podem reduzir atividade cerebral de jogadores

Projeto de desconexão do governo esbarra em pesquisa datada e sem lastro acadêmico atual.

Imagem: frame de vídeo

[ATUALIZAÇÃO: a campanha do governo baseou-se em uma pesquisa de 2017 e não no texto de 2015, originalmente utilizado no artigo. As informações foram atualizadas com base no trabalho indicado]

Circula na rede digital um vídeo realizado pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, de Damares Alves, que afirma que jogar online pode afetar a capacidade de raciocínio dos jogadores.

O vídeo faz parte da campanha Reconecte, do Desafio Detox Digital Brasil, que propõe a reconexão dos seres humanos, a partir do convívio familiar, restabelecendo o diálogo e o contato entre as pessoas.

Embora a proposta do governo faça sentido em tempos de interconectividade quase absoluta, a Secretária Nacional da Família, responsável pelo projeto, erra ao eleger os jogos digitais mais uma vez como os vilões do problema.

O estudo utilizado como base, denominado Orbitofrontal gray matter deficits as marker of Internet gaming disorder: converging evidence from a cross-sectional and prospective longitudinal design, foi realizado em 2017, e traz informações não levam em conta estudos igualmente atuais, que enfatizam, por sua vez, os aspectos positivos do uso de jogos digitais.

De acordo com as premissas do estudo, “principais sintomas [encontrados nos distúrbio de jogos via internet] incluem tentativas malsucedidas de controlar os padrões viciantes de comportamento e uso contínuo, apesar das consequências negativas que indicam uma perda de controle regulatório”.

O estudo em questão combinou buscou determinar as conseqüências do excesso de videogame on-line, avaliando 41 indivíduos com histórico de excesso de jogos na rede e 78 indivíduos sem vivência prévia nos jogos do gênero. Os indivíduos iniciantes foram submetidos de froma aleatória a uma imersão de 6 semanas de jogos diários na rede ou na condição de não-jogadores.

Como resultado, o estudo sugere que os jogadores com tempo excessivo nos jogos online demonstraram um volume menor da massa cinzenta orbitofrontal direita em comparação com os indivíduos recém introduzidos nos jogos. Esse menor volume de massa cinzenta na região foi associado a uma maior gravidade do vício em videogame pela rede, afirma a conclusão dos pesquisadores.

Por fim, a pesquisa indica que os resultados encontrados sugerem um papel importante do córtex orbitofrontal no desenvolvimento do vício em internet com uma associação direta entre o envolvimento excessivo com jogos online e os déficits estruturais encontrados nessa região do cérebro.

Contrariamente às impressões do ministério do governo, no entanto, o estudo Cognitive Benefits of Playing Video Games, de Peter Gray, PhD, pesquisador e professor de psicologia no Boston College, datado de dois anos antes, em 2015, explicava que o processo de “pesquisa mostra que os videogames podem melhorar as habilidades mentais básicas”. O educador continua, ressaltando que também apontou em suas análises “evidências de que os jogos podem ajudar as crianças a desenvolver habilidades lógicas, literárias, executivas e até sociais” e que “as evidências continuam a aumentar, desde então, no que diz respeito principalmente aos benefícios cognitivos de tais jogos”.

Já a pesquisa Action games expand the brain’s cognitive abilities, desenvolvida pela Université de Genève, também de 2017, chancela, sem deixar dúvidas, que “o cérebro humano aprende e se adapta. Numerosas pesquisas têm se concentrado no impacto dos videogames de ação no cérebro, medindo habilidades cognitivas, como percepção e tempo de reação. Uma equipe internacional de psicólogos reuniu dados dos últimos quinze anos para quantificar como os jogos de ação afetam a cognição. A pesquisa resultou em duas meta-análises, que revelam uma melhora significativa nas habilidades cognitivas dos jogadores”.

Em 2018, os pesquisadores Benoit Bediou, Deanne M. Adams, Richard E. Mayer, Elizabeth Tipton, C. Shawn Green e Daphne Bavelier realizaram o estudo Meta-analysis of action video game impact on perceptual, attentional, and cognitive skills, que avalia que “as análises do moderador [do estudo] indicaram que os games de ação aprimoram de maneira robusta os domínios de atenção top-down e cognição espacial, com sinais encorajadores de percepção”.

Por fim, o estudo lançado em abril deste ano, no International Journal of Mental Health and Addiction, pelos pesquisadores Filip M. Nuyens, Daria J. KussOlatz Lopez-Fernandez e Mark D. Griffiths, The Empirical Analysis of Non-problematic Video Gaming and Cognitive Skills: A Systematic Review, é taxativo ao evidenciar que “embora uma pequena minoria de jogadores compulssivos sofra consequências prejudiciais, incluindo o comprometimento de várias habilidades cognitivas (por exemplo, inibição e tomada de decisões), também foi demonstrado que jogar videogames pode melhorar diferentes habilidades cognitivas”.

Se o objetivo do governo é reaproximar as pessoas, tentando fazê-las se afastarem das telinhas, a secretaria ministerial deveria elaborar melhor seu discurso, evitando as falácias rasas e propondo alternativas sociais mais agregadoras.

Disseminar afirmações sem lastro não corrobora as boas intenções governamentais.

Assista, abaixo, ao vídeo da campanha.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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