Entrevista exclusiva com Nolan Bushnell, criador da Atari

O Drops de Jogos conseguiu acesso ao pai do Pong e da Atari para uma conversa rápida sobre games e o futuro digital.

  • por em 30 de abril de 2015

Nolan Bushnell é um daqueles casos em que a inspiração se une à técnica para criar novos mercados. O engenheiro elétrico mundialmente reconhecido como criador da Atari e do mercado de games, hoje com 72 anos, é um exemplo de tenacidade, seja no sucesso ou nas adversidades. Ao Drops de Jogos, o empreendedor  concedeu uma entrevista exclusiva, onde fala de seus erros e momentos inusitados na criação de games e o futuro desse mercado.

Drops de Jogos – Bushnell: ao longo do tempo, os games mantiveram o foco no entretenimento familiar, que era o objetivo principal da Atari em seus primórios?

Nolan Bushnell – Sem dúvida. Vale lembrar que os games conseguem alcançar o público de formas muito interessantes, e o bacana é que eles deixam as pessoas mais inteligentes ao mesmo tempo.

Drops de Jogos – Você acha que os designers da atualidade estão repetindo uma fórmula gasta ou há caminhos para criar jogos novos e interessantes?

Nolan Bushnell – Os games têm muito a evoluir. O projeto Oculus [Rift] está trazendo uma nova realidade para a interação, que é simplesmente fantástico; os acelerômetros e os telefones móveis alcançaram toda uma nova dimensão com o gestual; o fato de os tablets estarem ficando mais baratos, o processo de gamificação na educação, está tudo acontecendo; é uma verdadeira tempestade! Nos próximos cinco anos, as crianças aprenderão 10 vezes mais rápido do que aprendem hoje na escola. Isso nos dará mais tempo para aprendermos a ser criativos na programação de videogames, no empreendedorismo… É o admirável mundo novo!

Drops de Jogos – Você disse certa vez que, antes de produzir o arcade Pong, você teve a ideia de criar uma máquina com uma central de processamento a partir de um computador Data General Nova com quatro monitores simultâneos para batalhas em grupo no estilo de Spacewar!, uma ideia verdadeiramente revolucionária. Porque não funcionou?

Nolan Bushnell – Teria sido realmente genial fazer esse equipamento, mas o problema era que os computadores eram muito lentos na época. O computador com o qual eu estava trabalhando custava quase US$ 4 mil, e tinha uma velocidade de clock de 5 mil kiloheartz – não megaheartz – kiloheartz! Eram realmente muito vagarosos e impossíveis de fazer funcionar aquela ideia. (risos)

Drops de Jogos – Se você não tivesse vendido a Atari à Warner, como acha que a empresa estaria hoje?

Nolan Bushnell – É uma ótima pergunta. Não sei, mas acho que teria cometido uma série de outros erros. No entanto, acho que a Atari continuaria no ramo dos games e talvez não tanto prejudicada como aconteceu depois que a Warner começou a fazer aquela confusão. Havia algumas coisas que estávamos projetando, como tentar fazer os games serem jogados em rede. Quando eu olho para os projetos lá atrás, eu acho que a gente podia ter criado a internet 10 anos antes dela existir. Não seria legal se a Atari fosse a dona da internet? (risos)

Drops de Jogos – Você investiria seu dinheiro hoje no mercado de consoles, se tivesse a oportunidade?

Nolan Bushnell – Na verdade eu não acredito que essa nova geração de consoles seja importante. Se você olha para o que é possível fazer com o PS3 e o Xbox 360, você se pergunta: será que preciso que isso fique ainda melhor? Será que dá para ficar mais empolgante? Nesse momento estamos numa fronteira em que, para dobrar a resolução, você acaba aumentando o consumo de energia em 4 vezes, e eu não acho que estamos nesse ponto. Acho que essa luta já passou.

Drops de Jogos – Você acha que a simulação da vida em ambientes imersivos pode comprometer nossa noção de realidade, como afirmam certas fatalistas?

Nolan Bushnell – Acredito que possa nos aprimorar e trazer novos conhecimentos, mas é possível, eventualmente, ser ludibriado pela percepção. Uma vez, ainda na época da Atari, após passar o dia com um jogo de simulação de carros, fui para a minha casa, nas montanhas. No carro, tive a sensação de que continuava dirigindo o simulador. De repente, me dei conta de que, se eu caísse morro abaixo, não poderia simplesmente apertar o botão de 'novo jogo'. Foi uma estranhíssima mistura do mundo da simulação com a realidade. (risos)

Drops de Jogos – Autores como Janet Murray e Roy Ascott têm falado sobre a imersão nos games e a possibilidade de viver uma ou mais identidades na realidade híbrida entre o virtual e o real. Os games podem oferecer essa vivência de fato?

Nolan Bushnell – Quando você vai a um baile de fantasias você se diverte porque você abre mão da sua personalidade e 'veste' a personalidade da máscara. Os games operam da mesma forma e podem nos oferecer múltiplos avatares para nos dar essa sensação de liberdade. Um dos problemas é que, quando você não dá atenção à sua reputação [no meio], você pode acabar sendo um pouco idiota e rude. Acho que a rede deve ser um playground seguro mas, você sabe, é sempre possível encontrar gente ruim andando a esmo por aí. A internet é apenas um microcosmo da nossa sociedade.

Drops de Jogos – Como você resumiria a sua vida de empreendedor nessa área?

Nolan Bushnell – Sempre procurei entender o que divertia as pessoas. Pong juntava a espontaneidade dos parques de diversão com o fascínio pelas máquinas eletrônicas; os arcades que fazíamos na Atari estavam sempre em ambientes festivos, cheios de gente jovem; o VCS [que só ficou pronto após a saída de Bushnell da Atari] levou a família para se divertir em frente à tv nas casas… Até Chuck E. Cheese era baseado na ideia de sair em família ou com os amigos para se divertir, comendo pizza. Quem não gosta de comer pizza enquanto joga com os amigos?

Drops de Jogos – Muito obrigado, Mr. Bushnell.

Fonte: Play'n'Biz 

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