Opinião: Nintendo e a corte norte-americana indicam os rumos do respeito universal

Decisões recentes sobre os direitos de união em solo norte-americano e no universo de Fire Emblem Fates são históricas e mostram um mundo onde o respeito à diversidade de pensamento podem prevalecer sobre a intolerância social.

  • por em 27 de junho de 2015
Imagem: montagem com arte do game Fire Emblem If

O mundo recebeu quase simultaneamente duas decisões históricas, uma na vida presencial e outra no campo virtual: a corte norte-americana decidiu em favor da união entre pessoas de mesmo gênero em todo o país e a Nintendo anunciou, durante o Digital Event apresentado na E3, a abertura de sua política de inter relação com pesonagens. A Big N trará a possibilidade de união entre personagens de mesmo sexo no game Fire Emblem Fates.

O jogo em questão, anunciado para Nintendo 3DS, segue a premissa do antecessor Fire Emblem Awakening, de 2012, permitindo a união entre personagens próximos. Agora, um personagem masculino poderá encontrar sua cara metade na versão Conquest e, da mesma forma, personagens femininas encontram a opção de arranjar uma parceira em Birthright.

A decisão da empresa vem em um momento histórico importante, em que os direitos de gostar de quem se quiser e manter um relacionamento duradouro passam a ser reconhecidos pela suprema corte do território norte-americano. É uma decisão importante que deve causar repercussão, no mínimo, no mundo ocidental e na vida de milhões de pessoas que vivem diarimente o preconceito e a intolerância social. Da mesma forma, ao permitir que jogadores ampliem as possibilidades de interação no universo digital, empresas de games mostram sintonia com o pensamento atual e respeito à diversidade cultural e afetiva.

No caso da Nintendo a questão é ainda mais significativa, considerando que a empresa sempre deteve uma postura relativamente conservadora no lançamento de títulos, mantendo uma imagem de produtora com cunho e valores familiares. Esta imagem não muda com a decisão, que passa a reconhecer a ideia de núcleo familiar como a construção de um ambiente afetuoso e de respeito mútuo, no qual pessoas podem conviver, amar e consolidar uma relação estável independente de gênero. Mais do que os valores conservadores de uma sociedade preconceituosa e intolerante (vigente há séculos), estes núcleos familiares poderão transmitir princípios éticos e modelos de comportamento social aberto ao diálogo, certamente mais apropriados para encontrar respostas ao convívio mútuo e respeito às diversas culturas.

Não há dúvidas que há muito a ser feito ainda, tanto na realidade cotidiana quanto na vivência imersiva digital, mas o mundo é feito de transformações e da adaptação de nossa forma de pensar o todo como coletividade. Pequenas mas expressivas atitudes como a greve das tecelãs novaiorquinas em março de 1857, que acabou conduzindo a eventuais melhorias na equiparação de condições de trabalho entre homens e mulheres (sim, ainda há muito a fazer nesse quesito!) ou a luta contra a segregação promovida pelo movimento dos direitos civis para negros nos Estados Unidos nos anos 1960 são o estopim para amplas reflexões da sociedade sobre muitas posturas retrógradas e incompatíveis com quem pretende se afirmar como exemplo de civilidade. Nos games, incursões tímidas como Poison, a transexual de Final Fight e Street Fighter, ou a possibilidade de definir nome e gênero de um velho amor colegial em Farm Ville 2, independente de sua condição sexual, são elementos que enriquecem a jogabilidade e atendem a uma demanda que deveria ser encarada com naturalidade e não como exceções ao status vigente.

A vida dos outros – social ou digital – não nos pertence e saber conviver com as diferenças é sinal de maturidade emocional e aprimoramento daquilo que nos define como seres sociais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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Cultura
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