“Professores precisam falar de diferentes assuntos para ensinar sobre games”, diz Ernest Adams, fundador da IGDA

Americano de Tulsa, Oklahoma, Ernest Adams é pós-graduado em storytelling interativo, setor de pesquisa na área de games que ele apura desde 1995, e fundou a International Game Developers Association (IGDA) um ano antes, em 94. Fã de chapéus e cartolas, sua ONG tem cerca de 12 mil membros ao redor do mundo, incluindo o Brasil, com uma filial em São Paulo envolvendo até acadêmicos da USP. O objetivo da iniciativa é fomentar o desenvolvimento e a pesquisa na área de jogos eletrônicos.

Foto: Reprodução/Twitter

Além da área acadêmica, Adams trabalhou na Electronic Arts em 1992, depois de entrar na indústria de games três anos antes. Ele foi o designer principal do game Madden Football para 3DO e foi produtor de áudio e de vídeo de Madden NFL, entre 1993 e 1999. O desenvolvedor é conhecido por pelo menos seis livros: "Break Into The Game Industry: How to Get A Job Making Video Games" (2003), "Andrew Rollings and Ernest Adams on Game Design" (2003), "Fundamentals of Game Design, part of the Game Design and Development Series" (2006), "Fundamentals of Game Design, Second Edition" (2009), "Game Mechanics: Advanced Game Design" (2012) e "Fundamentals of Game Design, Third Edition" (2014).

O Drops de Jogos conseguiu uma entrevista exclusiva com Ernest Adams, antes de sua participação no SBGames 2015 que ocorrerá em Teresina, no Piauí, entre os dias 11 e 13 de novembro. Confira nossa conversa.

Quais são os pré-requisitos que um professor precisa ter para falar sobre videogames em escolas?

Videogames envolvem diferentes tipos de talentos e habilidades, mais do que qualquer outra mídia de entretenimento, incluindo até mesmo os filmes. Isso incentiva as crianças a aprender essas áreas, porque quase toda a criança tem algo a contribuir com uma equipe desenvolvedora. Jogos usam conhecimentos de programação de computadores, e uma certa quantidade de matemática e física. Games também têm sistemas econômicos e transações financeiras, com dinheiro virtual e, também, dinheiro real.

Para conhecê-los, os desenvolvedores precisam saber usar arte, animação e modelagem 3D. Você também precisa saber de música e de efeitos sonoros, além da escrita criativa que envolve personagens e situações dramáticas ou históricas. É também necessário saber cinematografia e fotografia, escolhendo ângulos de câmera e iluminação. É muita coisa, mas um professor precisa ser realmente preparado para falar um pouco sobre todas essas coisas para alunos que querem entender sobre jogos digitais.

Você acha que a indústria daqui está mudando com jogos indies brasileiros em plataformas tradicionais, como o PlayStation 4 e Xbox One? Qual é a sua opinião sobre isso?

Os consoles de jogos tradicionais estão sendo pressionados pelo crescimento dos dispositivos móveis, como tablets e smartphones. É mais difícil hoje vender jogos por  € 40 quando as pessoas podem obtê-los em seu tablet para € 4 ou até mesmo por € 0,99 nos celulares. Então, eles resolveram tornar mais fácil para os desenvolvedores indies sua entrada nos consoles. Isso é uma coisa boa para todos. Os desenvolvedores têm mais opções de hardware para suporte, e o consumidor tem uma variedade maior de compra.

Na sua opinião, precisamos de mais universidades para aumentar o mercado de jogos no Brasil?

As universidades não vai aumentar o mercado daqui, mas eles ajudam sim a aumentar o número de desenvolvedores de jogos brasileiros. Isso é uma coisa boa tanto para consumidores quanto desenvolvedores. Por que comprar jogos americanos e enviar o dinheiro para fora do país, quando você poderia comprar jogos feitos por brasileiros para os próprios brasileiros? Apoio da universidade é muito importante para este tipo de coisa. Eu sei de uma pequena cidade na Suécia em que a universidade foi responsável pelo ensino de desenvolvimento de jogos. Com o apoio do governo, eles ajudaram na criação de 25 estúdios gamers. Isso não teria acontecido se o ensino superior não estivesse presente.

Quais são as iniciativas de maior sucesso da IGDA?

Foram muitas iniciativas, mas o nosso feito mais importante foi o Curriculum Framework, que descreve o que um currículo educacional para a universidade de desenvolvimento de jogos deve incluir. Instituições do todo o mundo têm usado este documento para ajudar a criar os seus programas.

Lutamos também contra a censura de governos, iniciativa que foi bem-sucedida nos Estados Unidos em 2011. Há também muitos documentos criados por diferentes comissões sobre temas diferentes, como equilíbrio entre vida profissional e criação de uma empresa de games. São materiais úteis para os desenvolvedores. Estou muito orgulhoso do trabalho que eles têm feito, e quase tudo é livre para qualquer um ver. Você não tem que ser um membro para lê-los.

O que você espera sobre o público brasileiro em Teresina, durante os SBGames 2015?

Eu acho que eles são desenvolvedores de jogos bastante jovens, inexperientes com um ardente desejo de aprender mais sobre a indústria. Estou ansioso para conhecê-los lá!

O que você acha sobre Oculus Rift VR e gadgets feste naipe. Eles são o futuro dos videogames ou apenas uma hype, como foi Nintendo Wii e Kinect da Microsoft?

Eles são ferramentas muito valiosas para atividades limitadas. Eles vão ser populares com os jogadores hardcore que apreciam títulos de computador, singleplayer ou online. No entanto, videogames ainda são uma atividade muito social. Poucas pessoas vão ser capazes de utilizar mais de um display head-mount (HMD). Usar um delas já isola o player das outras pessoas na sala. Esses óculos são divertidos, mas nunca se tornarão a maneira padrão de jogo. Você não apreciar Mario Kart ou FIFA com eles. Alguns games só funcionam quando você está consciente das outras pessoas no local em que se joga. Eles não têm nenhum papel a desempenhar em jogos para celulares.

Há também um grande problema de segurança. Uma pessoa vestindo um HMD por si só não pode ver se sua casa está pegando fogo. Sei que este é um tipo de coisa chata para pensar, mas é realmente verdade. Não é uma boa idéia para isolar-se completamente de seu entorno.

O uso mais importante dos óculos de realidade virtual não parece estar na indústria de games, mas em aplicações industriais como a cirurgia remota e robôs que podem ser controlados a distância. Eles poderiam ser extremamente úteis para controlar algo como uma máquina que desativa bombas, por exemplo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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