Editorial: Não, o mercado de tecnologia e games não está bem no Brasil (e nem no mundo)

Aconteceu uma demissão em massa hoje

Controle de videogame. Foto: Freepik

Controle de videogame. Foto: Freepik

Por Pedro Zambarda, editor-chefe do Drops de Jogos.

O site GamesIndustry.biz, referência britânica internacional em análise de mercado, colocou no título de seu texto: “tendências para 2024: IA, novo hardware e mais demissões”. Os layoffs, expressão gringa para o passaralho, foram a palavra de 2023, ao contrário dessa cultura coach de autoajuda dos palcos. Muita gente perdeu emprego.

Prospecções do mercado apontam entre 6000 e 10000 demissões na cena internacional de videogames. Considerando que este é um segmento especializado, a conta piora se considerar todo o ecossistema.

Uma notícia quente: O site de notícias Tecmasters, que reunia também ex-jornalistas do Olhar Digital, fez uma demissão em massa nesta quarta-feira (17). Os cortes são fruto da crise do jornalismo, que continua acontecendo na comunicação digital.

Mas não explica a história por inteiro, uma vez que o patrocinador Kabum zarpou do site.

Claro que o mundo editorial é diferente do que uma empresa de desenvolvedores e outros setores desse mesmo mercado. Mas todos convivem num mesmo ecossistema. Os sinais são preocupantes.

Temos que parar de olhar o mercado de videogames e de tecnologia como um mundo mágico de fantasias e sonhos de puro entretenimento e enxergar a real: Somos vítimas e limitados por big techs que concentram os bens dos bilionários do nosso atual período histórico.

Com a passagem da pandemia da Covid-19, os bilionários ficaram mais ricos e as classes médias e pobres empobreceram, excluindo aqueles que morreram por falta de cuidados sanitários. E agora vem a inteligência artificial para liquidar seus empregos.

Dados no escuro

O Drops de Jogos tem coberto, quase solitariamente, a não divulgação da pesquisa nacional da indústria de games pela ABRAGAMES. A associação de devs prometeu a pesquisa para agosto do ano passado, publicou uma prévia com erros de informação e repassou dados errados para a revista Veja.

Pressionados pelo Drops de Jogos, a associação diz que vai divulgar a pesquisa que era para sair em 2023 no mês de fevereiro de 2024.

E fez uma fala reveladora sobre a falta de noção deles sobre o real tamanho do mercado de games no Brasil:

Importante destacar também que muitas empresas participantes da pesquisa apontaram que tiveram crescimento, mesmo havendo cortes e demissões. Claro, ninguém gosta de layoffs e demissões, mas sabemos que os momentos dos cenários nacional e internacional são inéditos, já que há uma readequação pós-pandemia e as expectativas de mercado sobre o seu desempenho ainda são relativas.

Em outras palavras, estamos vivendo um momento singular, o que não significa que o crescimento tenha relação direta com as demissões ou a desaceleração, como dito na matéria publicada pelo Drops de Jogos. Vale reforçar que existe uma análise de estado do próprio ambiente de mercado, mas os números não são diretamente proporcionais. Então, esse elo entre o crescimento do faturamento dos estúdios e as demissões não está diretamente relacionado, mas amarrado a outros fatores, como da saúde financeira da própria empresa ou da necessidade de reduzir o quadro para manter o crescimento e o faturamento.

Ou seja, o que importa para os responsáveis pela pesquisa da ABRAGAMES é a “saúde das empresas”, não a real situação do mercado do trabalho. Se o capital humano for um obstáculo para esse crescimento, que se corte esse obstáculo do caminho.

Em busca de uma análise realista, não pessimista

Há pessoas que insistem em falar que o mercado de tecnologia e de games está em um “momento singular”. Pessoal precisa acordar do “Fantástico Mundo de Bobby” e enfrentar os fatos postos em uma globalização da uberização, que destruiu os direitos trabalhistas mínimos, sobretudo no ambiente digital.

Se eu aponto esses pontos, sou chamado de pessimista e de implicante. Mas a análise é dentro da razoabilidade e desfazendo mitos do setor.

A saída de muitos profissionais desse setor, presos nesse imaginário imaturo, é se esconder nos chavões: “Videogames é maior do que cinema”. Isso é verdade… nos Estados Unidos. No Japão.

Você vive no Brasil. E mesmo nos países de primeiro mundo, a avaliação é a mesma:

A palavra de 2023, pós-pandemia, é demissão.

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Controle de videogame. Foto: Freepik

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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