Opinião: O mercado “cinza” de games no Brasil e o papel do jornalismo

A reportagem do site Drops de Jogos, prezando sempre por um jornalismo de alta qualidade, deu duas informações inéditas neste mês de maio. Descobrimos que a Sony, através de seu time jurídico, notificou 11 contas no Mercado Livre e 10 sites comercializando ilegalmente cópias digitais de jogos para PlayStation 4 e PS3. A segunda informação que conseguimos é que outras 27 lojas também venderam games irregulares e contas frias na PSN com ajuda de pelo menos um YouTuber, de acordo com denúncias de usuários que foram lesados nas transações.

Foto: Creative Commons/Flickr/Olivier Bruchez

Os dois textos deram repercussão na internet. Sites tiraram conteúdos do ar. Um certo vlogueiro também reclamou que "a imprensa só fala de YouTuber quando é para falar mal". Toda essa resposta é positiva.

Porque o verdadeiro jornalismo é publicado para informar e, sobretudo, incomodar.

O comércio não autorizado de jogos configura crime de direito autoral, especialmente quando os ganhos não são levados ao desenvolvedor de games. 

Isso vale para o videogame mainstream até a produção indie.

Quem pratica pirataria, mesmo que seja digital, contribui para que o criador do jogo não receba pelo seu trabalho. No Brasil, cerca de 50% da população consome algum produto tecnológico pirata. O patamar sobe para 57% em classes mais altas.

O dado é preocupante, pois mostra um mercado paralelo, portanto "cinza", consolidado no Brasil desde meados dos anos 90.

Começamos pirateando eletrônicos que não chegavam ao Brasil nos anos 1980, durante a ditadura militar. Na época, a população era vítima da reserva de mercado que incentivava a produção nacional, que não existia de maneira consistente, e espantava qualquer importação substancial.

Depois pirateamos videogames porque eles são encarados como produto de divertimento e possuem uma enorme carga tributária. No fim dos anos 1990, o PlayStation e sua mídia física em CD-ROM permitiu uma reprodução em série de jogos 3D.

Com mais piratas, menos margens de lucro existem para a Sony e para qualquer empresa de games no Brasil. Neste contexto, menos receitas geram um mercado mais medíocre e suscetível a poucos incentivos fiscais. Uma coisa puxa a outra, mesmo sabendo que muito brasileiro ainda consome pirataria, sem nenhuma hipocrisia da nossa parte.

Não estamos agindo como juizes e nem julgando efetivamente as pessoas mencionadas em nossas reportagens. Apuramos os dados, levamos ao público e se as autoridades acharem que medidas devem ser tomadas, são elas as únicas responsáveis por possíveis processos.

Por outro lado, apoiamos a cultura livre pregada por ativistas do software de código aberto, que se colocam como uma alternativa aos direitos autorais em uma lógica capitalista padrão e na criação coletiva de dados.

Mas também queremos uma mudança no tratamento que é dado aos videogames no Brasil. E isso se dá também pela melhoria do mercado.

Drops de Jogos faz jornalismo e fazer jornalismo significa apontar essas irregularidades.

E Drops de Jogos apóia a diminuição de impostos para os games. Ninguém quer continuar pagando mais de R$ 200 por um único título de forma legal.

Mas isso só será possível com uma redução significativa do mercado cinza, para que exista maior atratividade do país para negócios externos e até para fomentar o meio interno.

Você está disposto a parar de consumir pirataria ou contribuir para a sua diminuição no país?

Nós estamos juntos se for para melhorar a cena brasileira de jogos eletrônicos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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