Encontro de Mulheres e Games na PUC-SP: considerações de Juh Oliveira

  • por em 25 de maio de 2023

Encontro de Games com Mulheres na PUC-SP - Imagem: acervo

Na manhã de 17 de Maio de 2023 na PUC Consolação em SP capital participei de uma atividade que considero imprescindível dividir com vocês.

Coordenado pela professora Ivelise Fortim, docente na instituição, o evento contou com a presença de convidadas que dividiram seus conhecimentos e realizaram uma mentoria para mulheres dos cursos de games.

Érika Caramello, Lia Fuziy e Raquel Motta, juntamente com as estudantes Ana Vitoria Leão e Renata Oliveira Souza, compuseram a mesa e foram mediadas pela docente.

Após conversa na qual todos os alunos dos cursos de games puderam participar no auditório da PUC, começou uma etapa de mentoria exclusiva para mulheres. Um espaço seguro de trocas e que tanto as convidadas quanto as estudantes se sentiram confortáveis de partilhar experiências e informações, além de formar um grupo de apoio para que mais mulheres prossigam na formação de games e componham mais e mais empresas nesta área profissional.

Que vergonha, meninos!
Quando perguntadas sobre as dificuldades enquanto mulher no mundo dos games, Lia Fuziy que é professora na Faculdade Méliès, mentora e organizadora de eventos de games, mencionou algumas ocasiões em que as perguntas que recebe parecem sempre tentar validar a “carteirinha gamer”.

Mesmo enquanto docente de faculdade de games, experiente na área e coordenadora de projetos de game jam, é comum Lia receber questionamentos inusitados, principalmente de homens sobre os seus conhecimentos. “Você volta pra faculdade onde você estudou e tem que responder quiz pra ser creditada”, afirmou a docente, nessa frase me pegou demais! Isso não se faz, né, gente?

Outros termos que podemos até não saber pronunciar ou escrever muito bem por estarem em inglês, mas que conhecemos muito bem na prática enquanto mulheres no mercado de trabalho, foram mencionados pela Érika: bropriating, mansplaining, gaslighting.

Um cara pega suas ideias e diz que foi ele, aquela acusação de você tá louca vinda de um homem, a explicação que parece receber mais validação porque veio do gênero masculino… Cansa demais se reunir entre mulheres só pra compartilhar as violências, né? Vamos melhorar aí, garotos!

O diferente é um diferencial!
As dicas sobre o mercado de games, tanto para desenvolvedores quanto para empreendimentos/empresas foram o ponto alto da conversa em que estavam homens e mulheres no auditório. Não podemos olhar pra fora, sem olhar pra dentro!

A experiência de Érika Caramello, CEO da Dyxel Gaming, na GDC 2023 (Game Developers Conference) trouxe uma ótica internacional sobre o cenário de jogos. As ações com temática LGBT+ foram um destaque no evento pois ocorreu em San Francisco (EUA), local de grande importância à causa da diversidade.

“O mundo está de olho no Brasil! Nosso país será homenageado na Gamescon 2023!”, observou Erika. É um excelente momento na cena de games brasileira. Mas, se não ficarmos atentos primeiro aqui, não conseguiremos atingir o mercado internacional. Temos muito a oferecer enquanto empresas e também como profissionais!

Raquel Motta, Raquel Motta, CEO, fundadora e diretora criativa do estúdio Sue The Real, relatou que o diferencial da empresa são os afrogames, as narrativas de culturas negras. “Somos plurais”, afirmou, então é justo que coloquemos no plural e contemos as nossas histórias. E incentivou inclusive a mim, a quem sabe me tornar uma desenvolvedora de games, porque a experiência enquanto historiadora e socióloga tanto na sala de aula quanto na área Geek e de games me traz repertório para tal.

Enfrentamento e Rede de apoio
Foi muito necessário acontecer esse tipo de diálogo, tanto na etapa conjunta quanto na parte de mentoria somente para mulheres, pois a atenção aos “detalhes” que configuram violências, às vezes veladas e muitas vezes explícitas, é para todos e precisa ter ação efetiva das instituições e representantes destas.

Empresas, faculdades e universidades, eventos de games, produzem e reproduzem o machismo, racismo, homofobia e demais discriminações com a diversidade pois são parte de uma sociedade que infelizmente tem muito o que melhorar nesse quesito.

Queremos enfrentar essas dificuldades e construir redes de apoio e suporte adequado para esses grupos que infelizmente vivem esses preconceitos, acolhendo e ampliando redes seguras.

Algumas barreiras desde a contratação são enfrentadas. Raquel contou de uma experiência de contratação que a transição capilar foi um impedimento e que sua reflexão sobre aquilo contou com a sua rede de apoio. Prosseguiu partilhando que o jogo AYA, que desenvolveu, tem a ver com a aceitação do cabelo natural e a aceitação de quem se é com os crespos e cacheados.

“Quando você tem força, denuncie. Mas se te impedir de seguir a vida, converse com a sua rede de apoio”, compartilhou. A fala da Raquel me marcou muito porque quando estamos fragilizadas e vulneráveis não temos força para o enfrentamento direto às violências contra nós. É momento de refletir sobre os desgastes junto à sua rede de apoio, para se fortalecer e sentir-se segura para que outras situações assim não se repitam.

Lia Fuziy complementou com exemplos de frases muito faladas como “mas era só uma brincadeira”, e afirmou que quando não falamos sobre isso é como se estivéssemos normalizando o fato de sermos sistematicamente desacreditadas e isso vai minando a nossa força para o enfrentamento.

Érika apontou também o tópico ‘redes sociais’, indicando a proteção destas para evitar ataques e para que o que é privado assim se mantenha e não se torne mais uma barreira para a contratação.

Ivelise Fortim, doutora em Psicologia, profissional docente da área de games e experiente na área, trouxe mais situações de enfrentamento aos assédios nos diversos locais que circulamos enquanto mulheres na área de games. Existem barreiras na contratação, precisamos checar com frequência as informações e acordos, ouvimos supostos “elogios” que são ofensivos a nós. Precisamos enfrentar essas questões! Sermos assertivas!

Vamos juntas!
Algumas dicas para quem participou da mentoria, que quero dividir aqui:
• Seja esperta e assertiva!
• Faça portfólio e atualize-o sempre!
• Mantenha o Linkedin atualizado com as atividades que participa e desenvolve!
• Se ainda não se sentir segura para uma game jam, reúna alguns amigos e proponha um desafio de dois ou três dias para fazer um jogo, simulando o evento!
• Comuniquem-se, mesmo que aos poucos! Caso a timidez seja um impedimento, comece pelo virtual e depois vá a alguns eventos presenciais junto com a sua rede de apoio!
• O espaço acadêmico é o lugar de errar e acertar, os mentores e professores poderão mediar e auxiliar no processo!
• Fale sobre finanças! Seu tempo é valioso e você precisa saber o seu valor!
• Interaja em eventos de games, a exemplo do BIG Festival, para formar networking!
• Faça-se presente no mercado! Documente, indexe, chame a atenção!
• Conheça pessoas! Entre na bolha para que as indicações cheguem até você!
• Faça parte de grupos e seja um diferencial pelo seu trabalho!
• Participe de game jams, virtualmente ou presencialmente!
• Falem sobre política! As políticas públicas estão chegando aos poucos para a indústria de games, mas ainda precisamos de coletividade e renovação nas instâncias superiores dos jogos e da política para que algumas coisas mudem efetivamente!
• Comecem! Desde agora, com o que tiverem e com quem puderem contar!
• Não permita que as barreiras criadas por essas outras pessoas definam quem você é e a sua capacidade! Denuncie as violências e as enfrente, mas também seja acolhida pela sua rede de apoio e conte com as profissionais que te apoiarão e fortalecerão para esse enfrentamento!

Valeu e é nóis!

Juh Oliveira é mestranda em Cultura pela USP, bacharel em História e Sociologia, docente de Orientação em Educação Digital e Geek da Quebrada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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Lia

Maravilhosa! Obrigada pela matéria <3