O papel político da ABRAGAMES. Por Pedro Zambon, colunista do Drops de Jogos

 Um pouco de polêmica se fez em cima do tema golpe durante uma das mesas do BIG Festival, dia 30 de junho. De maneira anônima, a pergunta: "O que podemos fazer para nos defender dos nossos avanços da ameaça conservadora que se instalou depois do golpe?"

Foto: Divulgação

O tema elevou os ânimos da plateia, com risadas e aplausos efusivos, e nos faz perceber que – independente de qualquer coisa – o setor de jogos digitais não está em uma bolha à parte de toda a comoção e polarização que o contexto político nacional nos oferece. Sem intenção de discutir se é golpe, ou não é golpe, esse artigo vai se focar na fala de Eliana Russi, diretora da ABRAGAMES e do BIG, e coordenadora do projeto setorial de exportação Brazilian Game Developers (BGD). Falando em nome da Abrgames, BIG e BGD: 

"Quero afirmar que nós não temos nenhuma posição política. A gente está trabalhando com um setor que dá certo, um Brasil que funciona. Aqui ninguém é golpe ou anti-golpe".

A fala de Eliana é compreensível. Sem possuir uma posição definida enquanto associação ou evento, ela provavelmente temia que discursos mais inflamados pudessem taxar o grupo como a favor de alguma posição política. É de se destacar, inclusive, que o logotipo do atual governo estampava o quadro de patrocinadores do evento (como também estamparia o governo anterior se não fosse afastado). Outro ponto a se considerar é o fato anunciado naquela mesma mesa de que o BGD, ligado a Apex, estaria em últimos detalhes para o processo de renovação. E se uma postura mais combativa em relação ao governo atual se refletisse em alguma retaliação em forma da retirada deste projeto tão importante para o setor – e para a própria ABRAGAMES? Saindo do campo das especulações – e qualquer afirmação nesse caso seria desonesto da minha parte – a certeza neste caso é que a ABRAGAMES não possui nenhuma posição definida e oficial relativa a esta troca de comando do Governo Federal.

Mas ela deveria ter uma posição política?

No campo político partidário é consensual que uma associação organizada de empresários do setor de desenvolvimento não deveria se manifestar por uma organização política X ou Y. Isso principalmente porque seus associados são indivíduos de opiniões heterogêneas, mas unidos pelo interesse comum de fortalecer o setor. Entretanto a ABRAGAMES, como toda associação setorial, é uma entidade de natureza política. Para entender isso, um pouco de história.

O surgimento da ABRAGAMES, em 2004, esteve ligado a necessidade dos desenvolvedores brasileiros se representarem nos espaços de discussão, sobretudo com a renovação das políticas culturais realizada pelo ministro Gilberto Gil no primeiro governo Lula. Desta parceria surgiram editais como o Jogos BR e BR Games, e articulações como a inclusão dos jogos eletrônicos no escopo regulatório da Ancinav. Seu papel articulador é tão claro, que está marcado no Plano Diretor da indústria de desenvolvimento de jogos eletrônicos desenvolvido pela ABRAGAMES no mesmo ano de sua fundação:

A atuação atuação sinérgica entre o governo e a indústria é fundamental para que o Brasil possa participar da corrida de geração de conteúdo digital. A ABRAGAMES e o governo compartilham a percepção de que para atingirmos uma indústria de jogos com forte presença no Brasil e no mundo não existem entraves culturais, mas apenas desequilíbrios econômicos, gargalos que, nas palavras do Ministro Gilberto Gil, ‘são perfeitamente superáveis com visão estratégica das empresas e dos órgãos reguladores deste mercado’” (p.9)

O que está em jogo?

Aqui não está em voga o Fora Temer ou Fora Dilma, e sim o modelo oposto de política pública representado por eles. Os governos do PT, onde até agora articulou-se a ABRAGAMES, sustentavam a visão de um Estado como regulador da sociedade, entendendo a política cultural em três dimensões – simbólica, cidadã e econômica – o que privilegiou o fomento de setores marginalizados às concepções das artes consolidadas, caso do setor de jogos digitais. (Plano Nacional de Cultura, p.11)

Se a ABRAGAMES segue com o discurso de demandar dispositivos de fomento que estimulem a criação de um ecossistema sustentável de produção no Brasil, ela está defendendo justamente um modelo de política pública sustentado pelo governo afastado, que entendia a importância em produzir bens simbólicos em território nacional. 

O novo governo, contudo, está focado em uma política de redução do papel de atuação do Estado, enxugando ministérios e gastos públicos. Dos ministérios enxugados, inclusive, estão justamente aqueles três onde grande parte das políticas para o setor de jogos digitais surgiram até então: Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação, Ministério das Comunicações e Ministério da Cultura. O modelo de política privilegiado estaria na linha das isenções fiscais e entrada de capital estrangeiro no país. Nesse sentido, muito diferente do que a busca por um setor que produz propriedade intelectual, esta política seria útil para capitalizar a cena nacional na coprodução com grandes estúdios internacionais – à exemplo do modelo chinês. 

A definição de certo ou errado, ideal ou indesejado, cabe aos quadros da ABRAGAMES junto a seus associados. Mas o entendimento claro sobre qual modelo de política pública o setor está lutando é fundamental para o estabelecimento de uma estratégia ante ao novo cenário político. É a primeira vez, afinal, que a ABRAGAMES encontra um governo federal com alinhamento diferente daquele que existe desde a sua fundação. 

Pedro Santoro Zambon é professor, jornalista, gerente de marketing da Tlön Studios e mestre pela UNESP. Atualmente no doutorado, dedica-se a estudar as políticas públicas para o setor. Assina a coluna Gamestorming, em homenagem a um dos principais sites que cobria a indústria de desenvolvimento de games no Brasil. A página era parceira da revista INFO EXAME, da editora Abril.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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