Opinião: A demissão de Alison Rapp na Nintendo mostra que o GamerGate chegou na grande indústria

Em 2014, o GamerGate foi o assunto que dominou o noticiário de jogos internacional com os ataques sofridos pela desenvolvedora Zoe Quinn, incluindo acusações falsas de que ela teria trocado um review positivo no Kotaku de seu game Depression Quest por sexo. As personalidades públicas que a defenderam, incluindo a vlogueira Anita Sarkeesian, sofreram ameaças de morte de anônimos na internet. Escrevi, na época, que o "feminismo estava enfrentando o GamerGate". A história ganhou um tom mais sombrio em março de 2016, dois anos depois.

Foto: Divulgação

Alison Rapp era a especialista em marketing de produtos da Nintendo of America até o dia 30 do último mês. Ela trabalhou por quase três anos na gigante japonesa nos Estados Unidos e teve experiência na imprensa internacional de jogos como estagiária e blogueira da revista GameInformer. O motivo do desligamento, segundo a Nintendo, seria devido "a uma violação de uma política interna da companhia que a proibia de ter um segundo emprego". Alison confirmou que fez trabalhos sem assinar por seu nome para pagar empréstimos que contraiu enquanto era estudante da Universidade de Minnesota, mas deu uma explicação que conecta com ataques que ela sofreu de GamerGaters na internet há meses.

 "Comecei a fazer ‘trabalhos por fora’ com um outro nome e sem nenhuma identificação. Um anônimo descobriu e contou à Nintendo e aqui estamos nós. Foi desse segundo trabalho que a empresa não gostou, mesmo sendo algo que eu fazia anonimamente. Mas olha só: Vocês realmente acham que sem os ataques do GamerGate, o ‘movimento paralelo’ e a procura obsessiva por questões privadas teriam acontecido? Acham que, se a indústria não tivesse medo das mulheres, o meu segundo emprego teria sido um problema?”.

A pergunta dela foi no cerne da questão e revela que o GamerGate não tem absolutamente nada a ver com ética no jornalismo de jogos digitais. Trata-se, cada vez mais, de um movimento machista destinado a perseguir garotas.

A Big N de fato tem o direito de demiti-la segundo seu regimento interno, como faria com qualquer outro ex-funcionário. Mas a história ganha traços sombrios quando lemos que um site de supremacia branca, chamado Daily Stormer, incentivou parte dos ataques de GamerGaters na internet.

A Nintendo anunciou que uma mecânica de “fazer carinho” em personagens do jogo Fire Emblem Fates japonês, lançamento deste ano, seria retirada da versão ocidental. A ação da empresa fez com que GamerGaters desenterrassem um artigo acadêmico de Alison Rapp no qual ela defendia que os valores culturais do Japão deveriam ser protegidos, incluindo uma argumentação meio obtusa de que a sexualização dos adolescentes japoneses estava encravada na cultura nipônica.

O Daily Stormer fez uma ação coordenada contra Rapp, documentada em posts, empenhados em acusá-la de ser pró-pedofilia, enviando e-mails disfarçados de “pais preocupados” para executivos da Big N.

Alison sempre escreveu sobre questões femininas e se tornou uma profissional de destaque graças ao seu empenho, chegando a um cargo de destaque na Nintendo. No entanto, a onda de machismo que ronda entre os GGs parece estar determinada a difamar quem discorda deles.

Apesar do lamentável episódio, a ex-funcionária saiu da empresa com experiência em títulos expressivos, como The Legend of Zelda: Majora’s Mask 3D e Bayonetta 2. Reações negativas já se espalham na rede, como a atitude do desenvolvedor Brandon Sheffield (Necrosoft) de cancelar seu futuro lançamento no Wii U devido ao caso de Alison Rapp, como ele publicou no Gamasutra.

A história toda começou com uma desenvolvedora indie e agora parece ter chegado até uma das maiores desenvolvedoras de jogos do mundo. Onde será que a onda GamerGater vai parar?

Com informações do Kotaku, IGN Brasil e Overloadr

Acompanhe Drops de Jogos no Facebook e no Twitter.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Categorias:
Indústria