Raquel Motta: A difícil trajetória de superação de uma desenvolvedora negra de games no Brasil

O relato, embora emocionante, revela a necessidade crucial de conhecermos os games produzidos no país.

  • por em 17 de fevereiro de 2020

Imagem: frame de vídeo

As dificuldades para empreender no mercado brasileiro de jogos digitais sempre fez parte do roteiro para os desbravadores nessa área profissional, mas a jornada pode ser muito mais difícil quando se é pobre, negro e periférico.

A programadora Raquel Motta sentiu cedo a resistência de um setor que discriminava não apenas por ela ser mulher, mas por ser negra. Um ambiente hostil que “não aceita você do jeito que você é”. “Não fazia sentido para mim alguém não me aceitar em uma vaga de emprego pelo simples fato de que eu estava passando por transição capilar [processo de abandono de produtos químicos para progressiva], por eu ser negra com o cabelo crespo”.

Para Raquel, desenvolvedora do estúdio Sue The Real e uma das pessoas responsáveis pelo game One Beat Min, em parceria com o estúdio PixJuice, ainda em produção, esta trajetória é um caso clássico de rompimento das barreiras sociais e econômicas e uma história de superação em direção a um objetivo concreto: criar games com conteúdo e qualidade.

Em entrevista ao programa News Games, da Rádio Geek, no último dia 11 de fevereiro, Raquel contextualizava uma situação raramente percebida por profissionais que já iniciam suas carreiras com acesso aos bens de consumo, oportunidades de trabalho e estrutura socioeconômica e familar favoráveis. A tristeza em contemplar os limites da própria situação, por vezes desoladora.

Sobre o início e o prosseguimento no desenvolvimento de jogos, Raquel é franca quanto aos momentos de real desespero: “Foi muito na base de choro, na real…”, desabafou. “Às vezes, tem aquela síndrome do impostor, de você falar assim ‘caramba, será que eu tenho mérito pra estar aqui?'”.

O desejo de fazer a diferença e levar a história de uma raça para o mundo digital, no entanto, jamais esmoreceu. “A gente olha em toda a nossa trajetória e pensa ‘a gente está fazendo o que a gente gosta? Estamos’, então, vamos continuar, porque se trabalhar só pelo dinheiro a gente sabe que uma hora isso vai se tornar cansativo”, ponderou.

Raquel afirma que, para perseverar, bateram literalmente de porta em porta, tentando vender seus serviços e que o apoio, inclusive familar, foi de fundamental importância para esta difícil etapa.

“Ter o apoio tanto de família quanto de amigos – que algumas vezes emprestaram até equipamentos – fez com que a gente se estruturasse um pouco melhor; hoje a gente tem os equipamentos que nos permitem trabalhar sem pedir emprestado”, revelou.

“Foram coisas que a gente teve que aprender a lidar. Sentar na cadeira e chorar e falar ‘não tenho tudo o que eu quero, não tenho tudo o que eu preciso pra trabalhar’, não ia adiantar muito”, observou, sem auto piedade.

O relato, embora emocionante, revela a necessidade crucial de conhecermos os games produzidos no país e cuja temática verse sobre a nossa própria cultura, valorizando nossas raízes e auxiliando a estruturar o setor de jogos nacionais.

Para acompanhar toda a entrevista, e conhecer esta e outras histórias de superação no mercado de games brasileiros, acesse o canal de da Rádio Geek BR, no YouTube.

Abaixo, o vídeo completo da entrevista, que contou ainda com a participação de Juh Oliveira, militante das causas negras e apresentadora do programa Live PopGeeks.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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