O Gerente da Noite retorna ainda mais afiado uma década depois - Drops de Jogos

O Gerente da Noite retorna ainda mais afiado uma década depois

Dez anos depois, O Gerente da Noite recebe uma segunda temporada que continua tão intensa e afiada quanto a série original.

(Imagem: divulgação/Prime Video)

[Atenção: este texto tem spoilers sobre a segunda temporada de O Gerente da Noite]

A decisão de fazer uma segunda temporada para O Gerente da Meia Noite é uma das coisas mais indecifráveis. Afinal, no papel não faz muito sentido inventar uma segunda temporada para uma minissérie de 2016 e que já havia adaptado completamente a obra que lhe serviu de base.

Assim, tudo parecia uma se tratar apenas de mais uma tentativa da Amazon de emplacar mais uma série policial/espionagem de qualidade duvidosa no catálogo. E não que eu não goste dessas séries – neste sentido eu sou um verdadeiro boomer. Reacher é uma das coisas mais interessantes que o Prime Video já criou, e eu nunca vou deixar de dar risada toda vez que me lembro da cena em que o personagem de Alan Ritchson aciona o airbag de um sedã na bicuda.

Jack Ryan? Assisti as três temporadas assim que saíram. Detetive Cross? Pode mandar mais episódios todo ano que eu coloco como prioridade na minha lista. Enfim, eu sou abertamente um amante do gênero de fantasia, e uma das minhas fantasias preferidas são policiais e militares lutando por uma boa causa e indo contra o sistema para proteger a população.

Assim, eu tinha quase certeza que a tal segunda temporada de O Gerente da Noite iria ser algo no mesmo nível de qualidade. E isso era meio frustrante, pq a série original (ou, agora, primeira temporada) é uma das melhores histórias de espionagens já criadas para a TV.

Assim, eu estava esperando que a segunda temporada da série fosse cair a qualidade consideravelmente – e os primeiro episódios indicavam que sim, era isso que iria acontecer. Jonathan Pine (interpretado por Tom Hiddleston) agora era um agente secreto de verdade, com carteira assinada pelo MI6 e tudo. No primeiro episódio já vemos ele entrando com arma em punho num hotel – coisa que eu não me lembro dele ter feito em nenhum momento de toda a primeira temporada. E, quando ele perde a equipe, sai sozinho em uma missão de vingança na Colômbia contra – rufem os tambores! – o filho do vilão da primeira temporada da série.

Sim, durante três episódios inteiros a segunda temporada de O Gerente da Noite caminha com indícios de que se tornaria o mais novo cop slop do catálogo do Prime Video. Mas tudo muda no finzinho do terceiro episódio, quando é revelado que Richard Roper (o vilão interpretado por Hugh Laurie) estava vivo.

(Imagem: divulgação/Prime Video)

A partir desse momento, a segunda temporada de O Gerente da Noite desdobra toda uma nova trama com qualidade semelhante à original. Percebemos que toda aquela história rasa tinha muito mais coisa por trás, e voltamos a ter um complexo jogo de gato e rato entre Roper e Pine, onde a arma mais importante é a dissimulação e a informação.

Mas o que torna essa segunda temporada tão boa quanto a original não é o retorno de uma das melhores dinâmicas entre “espião x vilão” já criada, ou a ousadia de usar o fato de se transmitida na Prime Video pra fazer quem está assistindo achar que ela ia se tornar apenas mais um cop slop. Não, o que torna esta temporada tão especial é a ousadia de fazer um final onde os vilões definitivamente saem vencedores.

Sabe aquele clichê do herói que parece que não tem saída mas, no último instante, abre um sorriso porque tudo não passou de uma armadilha e o vilão agora está exatamente onde ele queria? Então, O Gerente da Noite usa exatamente este clichê – mas para o vilão.

Quando parece que Roper não tem mais saída e Pine finalmente irá prender ele – e todos os comparsas dele que atuavam dentro do MI6 – a série tem a coragem de fazer uma reviravolta ao contrário. E não apenas no ponto de “ah, o vilão escapou para lutar mais um dia”. Não, foi uma vitória real.

Os traidores? Continuam atuando em seus alto cargos dentro do MI6 e do parlamento britânico – possivelmente prontos para serem promovidos. Os aliados de Pine? Mortos – e mortos de verdade, com cena mostrando o corpo estirado no chão com sangue, o buraco da bala e tudo. Pine? Ferido e perdido no meio da floresta amazônica, sem ter para onde correr. E Roper? Livre para voltar à Inglaterra e viver em uma mansão com o filho.

Enquanto a primeira temporada de O Gerente da Noite teve a coragem de mostrar que o grande vilão do mundo era apenas um bilionário comum, a segunda temporada tem a coragem de mostrar o óbvio: que uma única pessoa não vai conseguir derrotar sozinha todo um sistema criado para dar mais dinheiro aqueles que tem dinheiro e manter no poder aqueles que já estão no poder.

A série, que começou parecendo que seria mais uma história de vingança e de como uma única pessoa pode fazer a diferença e destruir sozinha o sistema, se tornou ainda mais radical ao abandonar todos esses clichês e mostrar que não, não faz e não, não destrói. E, apesar de o final que mostra os corruptos se mantendo no poder e o bilionário que planejou e executou um golpe de estado voltando livre para seu país de origem ainda mais rico ser algo meio que anticlimático, ele se torna o final perfeito quando lembramos que isso é o que costuma acontecer em qualquer outro lugar fora dos filmes e da TV.

Mesmo em uma segunda temporada que foi sair uma década após da original, O Gerente da Noite se mantém como uma das mais radicais e surpreendentes histórias de espiões já criadas, e continua com louvor o legado de John le Carré.

*As duas temporadas de O Gerente da Noite já estão disponíveis no catálogo da Amazon Prime Video.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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